• Por Valéria, mãe de Francesco

“Corre, pois seu tempo está acabando!”


Valéria encontrou o amor aos 40. Engravidou em seguida, mas teve um aborto espontâneo. Meses depois, outro. Queria muito ter um filho e sentia cada vez mais forte a pressão do relógio biológico. A terceira gravidez começou cercada de cuidados: havia o temor de mais uma perda. Mas, ao contrário das anteriores, teve um final feliz: aos 44 anos, ela deu à luz seu primeiro filho. Francesco nasceu lindo e saudável, de parto natural na água.

Lembro que era bem jovem quando ouvi falar sobre o parto Leboyer, na verdade sobre parto na água, e desejei isso para mim. Entendia que era absolutamente natural uma criança nascer dentro d’água, sendo uma transição mais adequada do ventre materno para o mundo externo. Imaginava que seria muito gostoso e mais tranquilo para o bebê. Esse é o meu registro mais antigo sobre plano de parto, mas muito sutil. Também cresci ouvindo minha mãe falar que parto normal é a melhor coisa do mundo. Ela teve dois, o do meu irmão mais velho, que durou mais de uma noite inteira, e o meu, de três horas e meia de duração, sem qualquer intervenção, por pura falta de tempo: nasci uns 30 minutos depois de ela ter chegado à maternidade, num parto rápido e tranquilo.

Conheci Alexandre aos 40 anos. Nunca havia tentado engravidar, nem tido um companheiro, mas logo que começamos a namorar, em novembro de 2007, resolvemos nos casar. Ter filhos foi algo que desejamos desde o início do relacionamento. Ele já tinha um menino, com 9 anos na época. Engravidei em julho de 2008. Infelizmente no mesmo dia em que fiz o exame de sangue tive um aborto espontâneo. Estava na sexta semana. Após seis meses tornei a engravidar, mas na décima semana tive outro aborto espontâneo. Daquela vez foi necessário fazer curetagem.

Depois de conversar com minha obstetra, resolvi investigar as possíveis causas dos abortos, afinal a essa altura dos acontecimentos eu já estava com 43 anos e o tal do relógio biológico ficava apitando na cabeça como uma sentença: “Corre, pois seu tempo está acabando!”.

Dezoito meses depois do segundo aborto, na véspera da consulta em que levaria meus últimos exames, fiz o teste de farmácia e deu positivo! Na consulta, após o médico informar que havia encontrado três possíveis causas dos meus abortos, anunciei a gravidez. Ele disse: “Estamos atrasados… Vamos ver se dá…”. No mesmo dia tive de correr para comprar e tomar uma injeção, dose diária de um medicamento que tomaria até a 34ª semana de gestação: o importante era garantir que levaria a gestação adiante. Eu estava ansiosa, tensa, mas com esperança, confiante. Alexandre, meu amor e o melhor companheiro que poderia ter, nunca teve dúvidas que daria tudo certo. Ele dizia: “Amor, nós vamos ter um neném lindinho, você tem que confiar”. Isso sempre me acalmava, mas confesso que não conseguia ter a mesma tranquilidade dele.

Como não tinha obstetra em São Paulo, para onde havia me mudado depois de casar, e ficava complicado acompanhar uma gestação de risco com minha médica de Niterói, optei por fazer o pré-natal com o especialista em “falha de implantação” que havia diagnosticado as causas dos meus abortos, no seu consultório particular. Eu queria o melhor, assim fiquei mais segura. Tive uns pequenos sangramentos ainda no primeiro trimestre e precisei tomar remédios extras, contra aborto. Mas no final desse período estava tudo bem.

O caminho para o parto humanizado

O obstetra era muito competente e simpático – seu foco era a gestação. Em uma consulta resolvi perguntar sobre o parto e ele falou que eu tinha só 20% de chance de ter um parto normal, sem dizer exatamente por quê. Apenas falou sobre os riscos neurológicos a que um bebê está sujeito no parto normal, que poderiam ser evitados por meio de uma cesariana, uma cirurgia hoje tranquila. Saí de lá meio triste, desapontada, mas concordando que a prioridade era o meu filho e, se a cesariana fosse mais segura, paciência. Não era o que eu queria, mas não me sentia em condição de fazer escolhas: apenas esperava que ele nascesse em segurança e fosse saudável.

Como tinha liberdade com minha ginecologista de Niterói, liguei para ela e pedi sua opinião. A resposta me deixou mais triste: “Ele tem toda a razão, esse bebê é muito precioso para você. Nem esperamos entrar em trabalho de parto”.

Tudo isso me deixou muito insegura e me sentindo culpada por desejar um parto normal. Essa médica continua sendo uma profissional e uma pessoa que eu estimo e respeito. Mas discordar não é sinal de desrespeito ou falta de estima! Quando conversei com o Alexandre, ele disse que o que o médico havia dito era certo, mas que me apoiaria no que eu decidisse. Ele achava importante que eu estivesse segura. Confesso que às vezes eu queria que ele me dissesse: “Sai fora desse médico!”, mas acredito que ele estava certo em me deixar criar coragem para tomar minhas decisões e assim me sentir segura com elas.

Acredito que a gente sempre acha um caminho para o que quer, mesmo sem ter consciência disso. Nosso coração sabe e sei que somos guiados. Pois foi num sábado, 27 de novembro de 2011, que começamos a achar nosso caminho para um parto humanizado. Fomos convidados para um bazar de Natal de uma escola Waldorf. Eu estava com nove semanas e ainda mantínhamos a gravidez em segredo. Mas, quando vi os slings (carregadores de bebê feitos de tecido), fiquei doida. Ainda não havia comprado nada do enxoval, mas não podia perder a oportunidade. Achava muito legal e nunca havia visto para vender. Eram da Rosângela Alves. Como estávamos com o filho do Alexandre, que ainda não sabia da gravidez, disse que era presente para uma amiga. A Rosângela foi muito simpática e me falou de um encontro de gestantes e de outro bazar materno.

Lá conhecei a Flávia Mesquita (da Criando Gente, de blusas para amamentação), que me indicou uma lista de discussão sobre gravidez e parto humanizado. Foi assim que tudo começou a mudar. Para minha surpresa, pois não gosto muito de listas, isso fez toda a diferença na nossa jornada por um parto humanizado. Por isso, quando olho para trás, vejo aquela banca da Rosângela como um “portal para o parto humanizado”. Foi ela que, após me contar suas experiências de parto, me indicou uma obstetra. Fui à primeira consulta com o coração apertado, pois o risco de aborto ainda me assustava. Mas, depois que a conheci melhor, tudo desapareceu e ficamos em paz!

O nascimento de Francesco

Eram 2h do dia 26/06/11 (39 semanas e 4 dias de gestação), quando fui ao banheiro e observei uma leve coloração rosada ao me enxugar. Avisei ao Alexandre que achava que estava começando o trabalho de parto. Curiosamente, depois de uns três dias em que ele havia ficado me perguntando insistentemente, como uma criança, “Tá nascendo?”, “Tá nascendo?”, “Tá nascendo?”, ele me respondeu um “Tô dormindo!”. Fiquei desapontada, pois ele nunca agia assim. E, logo naquela noite tão importante, resolveu ter a sua “noite anual de mau humor”?! Bem, fui deitar chateada.

Às 2h30 fui de novo ao banheiro e saiu mais sangue. Novamente chamei o Alexandre, que então entendeu e se animou: estava começando! Deitei e as contrações começaram acompanhadas de cólica. Resolvemos anotar. Os intervalos eram muito curtos, variavam de 2 a 3 minutos, então não dava para descansar, como havia aprendido no curso de preparação para o parto. Pensei: “Isso não vai continuar assim, depois vai espaçar”. Com a movimentação no banheiro, minha mãe – que resolvera vir no dia 23, em vez esperar que eu entrasse em trabalho de parto – acordou e perguntou se estava tudo bem. Disfarcei dizendo que sim e corri para dentro do meu quarto, pois logo viria outra contração e não daria para disfarçar. Como imaginava que ainda levaria muito tempo, pensei que seria melhor que pelo menos ela descansasse. Ela voltou para o quarto. Sei que entrei no chuveiro várias vezes.

Lá pelas 4h30 descemos a escada para a sala e começamos a pensar em ligar para a Cris Balzano, minha doula. Curioso é que, quando desci, minha mãe já estava na sala, em pé, costurando as etiquetas das lembrancinhas. Tive que rir, pois sabia que isso ia acontecer. Eu tinha avisado… Eu havia terminado de fazer os bebezinhos de lã na noite anterior, ou seja, poucas horas antes.

Entrei novamente no chuveiro e já não conseguia mais falar. Durante as contrações, me pendurava na alça da janela, rezando para ela não desabar comigo.

A doula chegou rápido, por volta de 5h20. Ela me ajudou a sair do chuveiro e ir para o quarto. Quis me examinar e ouvir o bebê. Com uma certa dificuldade, deitei. Ela constatou que estava com 2 cm de dilatação, com a bolsa íntegra, e disse: “Ainda temos tempo”. Não consigo me lembrar de todos os detalhes, mas sei que ela falou que o coração do bebê estava bem. Ficamos um pouco no quarto revezando as posições. Ela me orientou a relaxar para o bebê descer, para eu soltar. Então me esforcei para não prender. Revezei posições: ajoelhada no chão, por cima de travesseiras na cama e ajoelhada na borda da cama, escorada pelo Alexandre, que me ajudava quando eu precisava. Às vezes ele chegava e eu não queria, pois estava muito voltada para mim mesma, com contrações muito intensas.

Às 6h, a Cris achou que eu precisava de um alívio. E seria bom que eu fosse para uma banheira. Como não temos em casa, ela ligou para médica para que ela verificasse se a sala de parto normal do hospital estava vaga. Ela retornou dizendo que sim, então resolvemos ir. Mas a simples tarefa de me vestir não era fácil, pois era difícil me concentrar em qualquer coisa que não fossem as contrações. Uma vez vestida, pedi em oração proteção à Mãe Divina, aos mestres, a Krishna. E fomos. Ninguém sabe ao certo que horas eram, mas sei que demoramos um pouco. No caminho até o carro me escorei na Cris, mais uma contração. Fomos em carros separados, eu no banco de trás, sozinha, ajoelhada. Procurei ficar calma, mas nessa hora tudo parece uma eternidade.

Sei que não demoramos muito para chegar, o Alexandre furou vários sinais vermelhos. Consta na minha ficha de entrada que chegamos às 7h30, mas acredito que tenha sido uns minutinhos antes… Logo um segurança veio trazendo uma cadeira de rodas e me levaram para o acesso à maternidade. Minha mãe foi comigo, a Cris ainda não tinha chegado e o Alexandre precisava estacionar o carro e passar na recepção. Lembro que me fizeram perguntas. Minha mãe não podia ajudar muito. E eu sem falar… Apenas urrava nas contrações, não conseguia controlar.

Quiseram me examinar e eu resisti, pois havia aprendido no curso de preparação para o parto que ficar fazendo exames de toque podia causar infecção, mas insistiram que o bebê poderia estar nascendo. Então fiz um esforço para deitar na cama e a constatação: dilatação total e sem bolsa – ainda não sei onde foi parar, talvez no sanitário lá de casa…

De fato, nem sei quando, mas fazia tempo que eu havia começado a fazer força. Ninguém havia mandado, mas era o que eu tinha que fazer, era assim. Perguntaram quem era minha médica e eu disse, num sopro de voz. Ligaram imediatamente para ela, dizendo: “Corre, senão vai perder esse parto”. E me levaram para a sala de parto normal. Quando cheguei lá, logo veio minha doula e disse para me colocarem na banheira. Fiquei de cócoras no meio da banheira. À minha frente, em uma das bordas, o médico plantonista me dizia e acenava para eu ir mais para a frente para ele poder pegar o bebê, mas eu não conseguia sair do lugar. Na lateral, havia uma médica obstetra e uma enfermeira. A Cris estava atrás de mim, falando que estava tudo bem, que não precisava fazer força rápido. Ao contrário da médica, que me mandava fazer força. Mas eu não percebia nenhuma das duas, estava totalmente concentrada e fazendo força naturalmente. Não era racional, simplesmente fluía de mim. Só sei que assim que entrei na banheira, após a primeira ou segunda contração, tentei passar a mão para sentir se a cabeça do bebê estava vindo, mas não deu para sentir direito, pois logo veio outra contração. Então vi a cabeça do Francesco já do lado de fora: nunca vou me esquecer daquela nuquinha linda. E, como num passe de mágica, eles “pescaram” o Francesco e clampearam o cordão (eu gritei quando vi, queria que tivessem esperado parar de pulsar, mas era tarde demais: nunca vi tanta eficiência para fazer algo que a gente não quer…). Desejava que fosse mais tranquilo, que minha equipe maravilhosa estivesse toda lá, que o Alexandre estivesse comigo na banheira me apoiando e vendo nosso filho nascer, que ele fosse tirado da água sem pressa, que o cordão parasse de pulsar naturalmente, mas… é feio reclamar de barriga cheia, né?

Francesco nasceu às 7h41, em um trabalho de parto rápido (5h11). Por tudo ter corrido tão bem, só posso agradecer. O parto foi sem qualquer intervenção e sem laceração – só uma ligeira fissura na mucosa, sem necessidade de pontos. E, muito mais importante, Francesco nasceu ótimo, saudável e lindo! Só me lembro de ter encostado atrás, na borda da banheira, e pedido na mesma hora para me darem ele. Foi tudo quase ao mesmo tempo na minha cabeça. Ele só deu uma choradinha de leve, mas logo parou. E quando o coloquei no meu colo, ficou calminho.

Todos os bebês nascem roxos? Pois é, ele nasceu rosadinho, sem inchaço ou amassado, penteadinho, simplesmente lindinho! Depois que estava com o Francesco nos braços, “despertei” e me dei conta que queria o meu marido ao meu lado. Pensei: “Minha mãe pelo menos podia ter visto meu filho nascer!” Ela não havia entrado porque nesse caso barrariam o Alexandre, mas depois que nasceu eu pedi e a chamaram. Ela entrou e ficou toda boba! Pedi para que chamassem o Alexandre. Passou um tempinho e ele entrou todo paramentado, de touquinha e tudo. Ficamos ali juntinhos, curtindo aquele momento lindo. A Cris colocou um pano sobre o Francesco e ficamos jogando água morna nele para mantê-lo bem quentinho. Depois chegou a minha obstetra, que ligou para o pediatra, que chegou quando ainda estávamos na banheira. Nossa médica abriu as cortinas, permitiu que meu filho visse a luz do sol e disse que ele iria gostar de acordar cedo! Colocamos o Francesco para mamar ali mesmo. O pediatra perguntou se o Alexandre queria cortar o cordão e, depois que ele cortou, me dei conta que estava com uma forte cólica e pedi para sair da água. Pegaram o bebê, e a médica me ajudou a andar até a cama. Ela fez umas manobras na minha barriga e num instante a placenta saiu. Aí eu estava no paraíso, as cólicas cessaram no mesmo instante! Perguntei ao pediatra se estava tudo bem e ele respondeu que o Francesco era supersaudável e perfeito: foi a melhor notícia que já recebi em minha vida! E como esperei para ouvir isso!

Depois que a equipe foi embora, continuamos ali: eu deitada com o Francesco no meu colo de bruços. De repente o danadinho levantou a cabeça com o pano por cima e tudo, parecia uma tartaruguinha… Almocei ali mesmo, pois já passava do meio-dia. Depois fomos para o quarto.

Levaram o Francesco, e o Alexandre o acompanhou até que voltasse para o quarto. Demorou umas três horas. Depois não nos separamos mais. No dia seguinte tivemos alta e fomos para casa em paz. O Francesco foi no sling até o carro!

Como toda criança, Francesco veio sem manual. Sendo meu primeiro filho, tudo é novo. Como todas as mães de primeira viagem tenho muitas dúvidas, mas estou cada vez mais convicta que o tal de instinto materno existe e supera todas as nossas limitações, sem a pretensão de ser supermulher ou supermãe. Como diz o Alexandre, o instinto é superior a qualquer orientação médica, qualquer pedagogia, qualquer filosofia. Na dúvida, siga seu instinto. Alexandre disse que a cada dia eu o reconquisto, fica surpreso em ver minha evolução e cada vez mais apaixonado por mim. Isso me ajuda e encoraja muito, acho que então não estou errando tanto… O Francesco é um amor. E às vezes quase me belisco para ver se não estou sonhando!

Desejamos para o Francesco um mundo mais humano e menos virtual, mais parecido com a infância que tivemos. Utopia? Não, é possível sim, cultivando valores humanos, espirituais, o que percebemos que falta nos dias de hoje. Queremos que ele tenha o direito de sonhar, ser realmente uma criança, não uma promessa de sucesso. Que se mantenha longe dos problemas do mundo adulto, cada coisa ao seu tempo. Que possa primeiro descobrir que o mundo é bom, e imitá-lo. Descobrir que o mundo belo, e copiá-lo. Depois descobrir que o mundo é justo, e brigar por uma vida melhor para todos. Mais do que tudo, desejamos que ele aprenda a amar a todos indistintamente. E, acima de tudo, a Deus.

#partonaágua #relatodeparto

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Fotografias por:  Kátia Ribeiro,  Bia Takata, Lela Beltrão, Marcelo Min, Cristiane Pereira e Carla Raiter / Acervo Casa Moara