Márcia Koiffman

09/11/2010

O respeito à natureza feminina e a confiança na capacidade ancestral das mulheres de dar à luz formam os pilares que sustentam o trabalho da obstetriz Márcia Koiffman.

 

A maioria das parteiras conta que em algum momento da vida sentiu um chamado para a profissão. O da obstetriz Márcia Koiffman aconteceu logo depois do seu parto. Na época, recém formada pela tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Márcia já tinha certeza de que o mundo jurídico não lhe falava ao coração. Mas ainda não conseguia ver outro caminho profissional pela frente.

 

Filha de um advogado e de uma professora de inglês, depois de desistir da carreira do pai, decidiu num primeiro momento enveredar pelos domínios da mãe. Aproveitando sua facilidade para o aprendizado de línguas, fez um curso de tradutora e intérprete. E essa se tornou uma ocupação provisória, exercida em casa, que combinou bem com o período de sua gestação.

 

O parto normal era tradição na família. Por isso o assunto nunca foi motivo de grandes preocupações. Fez apenas um curso de preparação para o parto oferecido na maternidade. Nas aulas, teve seu primeiro contato com a obstetriz Odete Nakashi, a responsável pelo curso.

 

Uma manhã, durante uma consulta de rotina na 36ª semana, Márcia foi surpreendida pela notícia de que já estava com 3 cm de dilatação, segundo o médico, que disse que sua gestação dificilmente chegaria a 40 semanas. Ele estava certo. Na madrugada seguinte, a bolsa rompeu. Tranquila e sem sentir absolutamente nada, Márcia saiu de casa com o marido para a maternidade. “No caminho já não sabia direito onde estava, de tanta contração que começou a vir. Eu achava que era porque o carro estava balançando. Quando cheguei à recepção, a única coisa que consegui dizer foi: eu quero a dona Odete! Por sorte ela estava de plantão. E veio me atender”, lembra. Três horas depois que a bolsa rompeu, o bebê chegou ao mundo pelas mãos da parteira Odete. O parto evoluiu tão rápido que o médico não conseguiu chegar na maternidade a tempo.

 

Na época, quase não existiam obstetrizes ou enfermeiras obstetras. “Dona Odete atendeu meu parto e eu pensei: mas como assim, se ela não é médica? E começamos a conversar.” Depois do parto, apesar da boa recuperação, Márcia teve dificuldades com a amamentação. Em busca de ajuda, ligou para seu médico, que a confortou, mas não deu ao problema o encaminhamento que ela esperava. “Ele me disse para não me preocupar caso a amamentação não desse certo porque nenhuma criança morria por tomar leite em pó. Sei que falou isso na intenção de ajudar, mas não era o que eu precisava: eu queria amamentar. Procurei então a dona Odete, que foi à minha casa me orientar.”

 

A proximidade entre as duas gerou um vínculo que despertou em Márcia o interesse pela história daquela mulher. “Mas o que a senhora é?”, perguntou certa vez. “Sou parteira, fiz o curso de obstetrícia”, ouviu como resposta. “É isso o que eu quero fazer”, concluiu Márcia, feliz ao descobrir a existência de uma profissão que lhe permitiria acompanhar a gestação, o parto e o pós-parto de mulheres saudáveis, sem que para isso precisasse estudar medicina, um universo que nunca a atraiu. Estava aí o chamado de Márcia para a profissão, aquele que toda parteira relata ter ouvido em algum momento da vida.

 

De volta à universidade

 

 

Ao pesquisar sobre o curso de obstetrícia da USP, Márcia ficou sabendo que havia sido fechado na década de 1970 e incorporado pela Faculdade de Enfermagem, com o nome de enfermagem e obstetrícia. “Então é esse o caminho que existe hoje para virar parteira?”, pensou, sem se intimidar pela perspectiva de ter que cursar mais quatro anos de faculdade e um de especialização para alcançar seu objetivo.


A faculdade foi um período de muitos desafios e descobertas. A primeira delas, frustrante. “Na minha cabeça, eu poderia escolher entre enfermagem e obstetrícia. Mas quando comecei a olhar as matérias, pensei: onde está a parte de parto?”, lembra Márcia. Logo ela se deu conta de que o nome “obstetrícia” só estava no papel. De onde também sumiria logo em seguida. “Houve uma reformulação curricular na qual o nome foi embora de vez”, lamenta. O novo currículo era composto de um primeiro ano básico seguido de dois anos divididos em quatro módulos: saúdo do adulto, da criança, da mulher e enfermagem psiquiátrica. “Vai demorar a chegar aonde quero”, foi sua conclusão.

 

Determinada, ainda no segundo ano do curso de enfermagem, resolveu bater na porta do Amparo Maternal, maternidade pública com o maior volume de partos da cidade de São Paulo, e se oferecer como voluntária. Estudante madura, focada no objetivo de ser parteira e muito estudiosa, Márcia foi bem recebida pelas enfermeiras de lá. Incluindo a então diretora do centro de parto normal, Ruth Osava, e as docentes da Escola de Enfermagem da USP Isabel Bonadio e Maria Alice Tsunechiro, responsáveis pelo ambulatório de pré-natal. “Elas abriram todas as portas para mim”, reconhece.

 

Durante os anos da faculdade, ela se manteve sempre presente no Amparo, onde participou de grupos de gestantes e acompanhou consultas de pré-natal até chegar à sala de parto. No início, apenas para observar e dar apoio à mulher, numa função semelhante à de uma doula. Até que um dia uma das obstetrizes lhe perguntou: não quer fazer um parto? Ela não pensou duas vezes: “eu quero!”. “Já cursou a disciplina de saúde da mulher?” Com sua resposta afirmativa, surgiu enfim a oportunidade pela qual ela tanto aguardara.

 

Humanização do parto

 

O mundo acadêmico também lhe colocou em contato com um importante movimento que começava a surgir no Brasil, o da humanização da assistência ao parto. “Embora o curso não se chamasse mais obstetrícia e o currículo não fosse o que eu imaginava, entrei na faculdade num momento muito feliz por conta justamente disso”, pondera. As professoras da Faculdade de Enfermagem da USP apoiavam esse novo modelo de assistência e o valorizavam como uma oportunidade de as enfermeiras obstetras voltarem a atender partos.

 

Essa tendência se materializou como política pública, com a inauguração da Casa do Parto de Sapopemba, onde o atendimento é realizado por enfermeiras obstetras. Na mesma época, Márcia assistiu a uma palestra da parteira alemã Angela Gehrke, que fez história com seu trabalho na favela Monte Azul, zona sul de São Paulo. Em 2000, esteve presente na Conferência Internacional sobre Humanização do Parto e Nascimento, em Fortaleza. “Fiz parte desse momento efervescente”, relata.

 

No último ano do curso de enfermagem, batalhou para conseguir uma vaga de estágio curricular no centro obstétrico do Hospital Universitário (HU). “Havia só duas vagas e a classificação era por nota. Obstetrícia era uma área concorrida. Estudei muito e fui a primeira da turma.” No último semestre do curso, cumpriu o estágio de administração na clínica obstétrica do Hospital das Clínicas, onde teve contato com casos complicados e raros. “No final, consegui ter uma formação muito rica, apesar de o currículo do curso de enfermagem ser tão restrito em obstetrícia”, avalia.

 

Na sequência, engatou um curso de especialização em obstetrícia,  “Sem esse curso eu não poderia atender partos. Seria uma enfermeira generalista, não uma obstetriz.”

 

O campo de estágio do curso de especialização era o Amparo Maternal. A enfermeira obstetra Ruth Osava, a supervisora do estágio na sala de parto, e as professoras Isabel e Maria Alice, no pré-natal. Ou seja, Márcia estava em casa. “A carga horária prática era enorme para um curso de um ano. Num grupo de quatro alunas, fazíamos plantões semanais de 12 horas no centro de parto normal e de 6 horas no ambulatório de pré-natal. Com aquele volume de até 1 500 partos por mês e cerca de 20 consultas de pré-natal por dia, quando terminei a especialização, tinha atendido 80 partos e muitas consultas de pré-natal, fora a assistência como voluntária.”

 

Depois de formada, Márcia foi convidada a trabalhar no Amparo Maternal. Parecia um caminho natural para quem tinha atuado lá do segundo ano da faculdade até o fim da especialização. Mas a ideia de trabalhar em esquema de plantão não a agradava, pois seu maior objetivo era seguir uma carreira independente, autônoma, pouco comum na área de enfermagem. Com dor no coração, recusou o convite mas continuou atendendo como voluntária uma vez por semana, sempre às segundas-feiras, no centro de parto normal. No pré-natal o trabalho também continuou, como parte das atividades do curso de mestrado, iniciado logo após o término da especialização.

 

Assim, tendo Isabel Bonadio como orientadora e Casa do Parto de Sapopemba como tema de estudo, durante todo o mestrado realizado na Escola de Enfermagem da USP, que durou dois anos e meio, Márcia continuou como voluntária no Amparo Maternal.

 

Caminho independente

 

A oportunidade de atuar como parteira autônoma surgiria com a internet. Pipocavam na rede os primeiros sites e listas de discussão sobre parto formados por grupos de mulheres. O parto domiciliar começava a ser uma opção. No mestrado na Escola de Enfermagem da USP, Márcia havia conhecido a enfermeira obstetra Priscila Colacioppo, com quem teve muita afinidade. “Ela tinha trabalhado muitos anos numa maternidade particular de São Paulo, mas estava fazendo pós-graduação para dar aula, não queria mais saber de hospital.”

 

Em São Paulo, além da parteira alemã Ângela Gehrke, da Monte Azul, a única enfermeira obstetra que atendia partos domiciliares era Vilma Nishi. “Quando comecei a participar das listas de discussão na internet, as mulheres me perguntavam: você é enfermeira obstetra? Não quer atender partos domiciliares? Muitas mulheres estão buscando isso e só temos a Vilma Nishi para indicar”, lembra Márcia.

 

 

Ela pediu um tempo para pensar e procurou Priscila, que além dos anos de experiência no hospital, também tinha trabalhado com a parteira Angela na Monte Azul. “Vamos começar a atender juntas?”, propôs. Foi o início da parceria entre as duas. “Ela estava com o lado parteira meio adormecido, mas aceitou na hora. Em abril de 2005 atendemos nosso primeiro parto domiciliar, de uma mulher com cesárea prévia.” A banqueta de parto que utilizam até hoje, com assento estofado e pés de madeira, pertenceu a Angela: herdada por Priscila, passou um tempo decorando a sala de sua casa.

 

No início, o pioneirismo no atendimento ao parto domiciliar trouxe dificuldades. A começar por uma aparentemente simples: o nome da profissão. O que Márcia e Priscila eram, afinal? Partiu delas o termo “parteiras contemporâneas”, com que se diferenciam das parteiras leigas. “Sem demérito, apenas para as pessoas entenderem o que é uma parteira que atende em São Paulo e qual a sua formação”, explica. Em seguida, criaram o site da Primaluz para divulgar esse modelo de atendimento. Em pouco tempo, a página ganhou o reforço dos depoimentos das mulheres atendidas, desejosas de expressar publicamente sua satisfação com a assistência recebida.

 

Se ainda hoje o parto domiciliar desperta reações que vão da surpresa à indignação, em 2005 o cenário era muito menos favorável. “Não se tratava de um trabalho clandestino porque ilegal nunca foi. Na descrição da profissão de enfermagem está muito claro que a enfermeira que tem o título de obstetriz pode atender o parto normal de baixo risco”, explica Márcia. No entanto, até o registro do bebê que nascia em casa era complicado. “Várias vezes tive de ir ao cartório para ser testemunha.”

 

Com o tempo e a prática, Márcia e Priscila desenvolveram um jeito próprio de trabalhar, baseado principalmente na experiência delas, mas também na de outras parteiras, como Vilma Nishi e a americana Elizabeth Davis, autora de Heart & Hands: A Midwife’s Guide to Pregnancy and Birth (sem edição em português). O livro é considerado um clássico nos Estados Unidos tanto por aspirantes a parteira quanto por casais interessados nesse modelo de assistência ao parto.

 

Com sensibilidade para observar detalhes que muitas vezes passam despercebidos, foram criando seu próprio “protocolo” de assistência ao parto domiciliar. “Fazemos no mínimo três consultas pós-parto. A do dia seguinte é muito importante. Outro momento crucial é o terceiro dia porque é quando o leite desce e a mulher em geral precisa de ajuda. Essas visitas são sempre domiciliares. Achamos que a mulher que teve o bebê em casa precisa ser vista em casa”, explica Márcia.

 

Desde que montou seu consultório na Casa Moara – um espaço agradável e informal, voltado para um pequeno jardim – é lá que Márcia prefere atender as consultas de pré-natal. É uma forma de organizar melhor o seu dia e diminuir os deslocamentos pela cidade, que lhe consumiam tempo e energia demais. Moradora do Brooklin, foi ela quem passou por ali e descobriu a casa à venda. Sentiu na hora que era aquele o lugar que estavam procurando, impressão confirmada pelos sócios Andrea Campos, Mema e Jorge Kuhn, com quem já vinha estreitando sua parceria de trabalho. 

 

 

 

Márcia os conheceu no início de seu trabalho como parteira autônoma. “Os três, que sempre apoiaram o parto atendido por parteiras, se dispuserem desde o início a ser nosso backup (retaguarda) no caso de uma transferência de parto domiciliar”, conta. A possibilidade de trabalhar com médicos que atuam dentro da mesma filosofia também oferece às mulheres que querem um parto com parteira, mas no hospital, uma garantia maior de que seus desejos serão respeitados.

 

Vida pessoal

 

Entre as coisas que Márcia gosta de fazer nas horas livres estão ir ao cinema, "assisto tudo", ler e os trabalhos manuais, especialmente o tricô. “Faz parte de minha memória afetiva porque foi a minha avó, a quem eu era muito ligada, que me ensinou”, conta. Viajar é uma grande paixão, principalmente para lugares one tem contato com a natureza. Por isso não abre mão da pausa no final do ano. “Conquistei o equilíbrio. Mas meu marido costuma dizer que ele foi enganado: casou com uma advogada que virou parteira”, brinca.

 

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* Luciana Benatti é jornalista e autora do livro Parto com Amor (Panda Books).

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