Continuo acreditando no Parto Natural

Faltava pouco: era só sair a placenta. Mas ela não saía. E Daniela teve de ser transferida de ambulância de sua casa, onde acabara de ter um parto lindo, para o hospital. Foi muito difícil, mas acabou tudo bem. “A experiência de ter tido a minha filha em um parto natural, com a segurança de estar bem assistida, fez com que realmente nascesse uma nova mulher.”

 

 

 

Por muito tempo pensei seriamente na possibilidade de não ter filhos, pois imaginar um bebê saindo de dentro de mim, seja pela vagina ou pela barriga era assustador demais. Em ambos os casos associava o nascimento a dor, sofrimento, sangue, hospitais, doença. Até que encontrei o Mauro, meu marido, que antes mesmo de nos conhecermos já estava ansioso por ter um bebê. Vim para São Paulo, moramos juntos, casamos e combinamos que no ano que terminasse a minha faculdade começaríamos as tentativas.

 

O curso foi chegando ao final e percebi que, com o pavor que eu tinha de partos em geral, ter um bebê seria um grande problema. Comecei então a pesquisar sobre a fisiologia do parto, os procedimentos hospitalares, cesariana e tudo mais que fosse relacionado ao parto. Encontrei alguns sites animadores, como as Amigas do Parto e a Parto do Princípio, que indicavam outros links, textos e relatos. Neste momento em que eu já buscava informações, vi uma entrevista com a Gisele Bündchen, contando sobre o nascimento do seu filho em casa. Lembrei de uma vizinha de dez anos atrás, que poucos dias antes de a minha mãe passar por uma cesariana agendada, teve sua filha no apartamento acima do nosso, com muito sucesso e saúde. Lembrei que ela falou sobre fazer massagem no períneo com óleo de alguma coisa.

 

Na época a considerei completamente louca, e se algo desse errado? Mas ela plantou uma sementinha e dez anos depois lá estava eu começando a ver alguma lógica em tudo aquilo… Comecei a pesquisar sobre parto domiciliar e parto humanizado. E vi que era aquilo que eu queria. Entendi que o medo monstruoso que me rondava não era do parto em si, mas das intervenções que no meu íntimo eu não acreditava que eram corretas.

 

Sempre compartilhei minhas inquietações com o Mauro, que desde o princípio abraçou a ideia. Se eu não tinha medo, ele me apoiaria incondicionalmente. Depois de ler muitos relatos e textos, contatei uma doula e, antes mesmo de engravidar, já agendei uma conversa com ela. Expliquei que ainda não estava grávida, mas que já queria escolher os profissionais para não correr o risco de na última hora “entrar na faca”, como ocorre com muitas mulheres.

 

Ela me indicou alguns profissionais e eu planejei marcar consulta com pelo menos dois para fazer a escolha. No dia seguinte comemoramos nosso primeiro aniversário de casamento e decidimos que a hora havia chegado. Como conheci muitas mulheres que demoraram a engravidar, até mesmo na minha família, e o Mauro viaja muito a trabalho, combinamos que não entraríamos em desespero, pois a gravidez poderia demorar, e aquele ciclo já estava perdido. Mas, para nossa surpresa e felicidade, no mês seguinte estava grávida!

 

No momento em que engravidei, fiquei diferente. Todo mundo notou, principalmente o maridão, mas não sabíamos o que era. No dia em que mais ou menos a menstruação deveria vir, fiz um teste de farmácia depois da aula. Positivo. Estava sozinha em casa, pulei de alegria! Era sexta-feira e iria buscar o Mauro no aeroporto em duas horas. Mas na hora bateu um medo: ainda não tinha ido conhecer nenhum médico, não estava tomando ácido fólico, não tinha me preparado. Liguei para o consultório do médico que a doula tinha indicado como o bambambã. Por sorte consegui consulta para a mesma tarde, depois da chegada do Mauro, que inicialmente não levou muita fé. E antes da consulta passamos no laboratório para fazer o exame de sangue.

 

Gravidez não é empecilho

A primeira consulta foi fantástica! Adoramos tudo e decidimos continuar o pré-natal com ele. Neste primeiro momento já falei sobre o desejo do parto domiciliar. Ele, com sua calma habitual, respondeu que tínhamos um longo caminho pela frente, que esta era uma decisão a ser tomada mais tarde, que teríamos de nos conhecer melhor. Estava muito agitada com toda aquela novidade, mas não esquecerei das suas palavras quando o interroguei sobre o que poderia e o que não poderia fazer, como viajar de avião: “A gravidez vem para acrescentar na vida de vocês, para trazer felicidade, não para ser um empecilho”.

 

Seguimos a gestação de forma tranquila, apesar de ter sentido uma forte cólica no meio de uma aula e de um sangramento leve, mas persistente, que se mostrou consequência do posicionamento da placenta. Mas segui sempre aquele primeiro conselho. E posso dizer que tive uma gravidez feliz, estava radiante!

 

Lá pelo quinto ou sexto mês li em um site que era a hora de começar a visitar as maternidades para escolher onde o bebê nasceria, e fui perguntar ao obstetra como faríamos, já que nós não queríamos ter um bebê em uma maternidade. Neste ponto já estava decidida a ter o parto com parteiras e queria uma equipe enxuta, queria ter privacidade. Ele, com sua serenidade, me indicou a parteira, que eu já tinha conhecido no grupo de gestantes. Conheci também a sua parceira e comecei a intercalar as consultas, sempre conversando abertamente sobre minhas dúvidas, meus medos. Engraçado é que nunca tive medo da dor física, sempre afirmei que teria um parto rápido. Todas as consultas pré-parto foram cruciais para que mantivéssemos nossa escolha, pois em nenhum momento senti qualquer insegurança nos profissionais. Percebi que eles confiavam na nossa escolha e na minha capacidade de parir.

 

Eu, por outro lado, tive momentos em que pensei em declinar. Ouvi tantas coisas, me senti tão pressionada, principalmente nas últimas semanas, já que as pessoas realmente não estão mais acostumadas a esperar que o bebê nasça quando for a “hora dele”. Parto natural? Diziam que eu era louca, que era coisa da idade da pedra, que não iria aguentar, que sairia toda rasgada por não fazer episiotomia, que era perigoso etc.

 

As poucas mulheres que tiveram parto normal entendiam a minha decisão e diziam que era tranquilo. Quem tinha mais medo eram justamente aquelas pessoas que nunca sentiram a dor, ou porque não tinham filhos ou porque fizeram cesárea agendada. Cada vez que o telefone tocava, sentia uma profunda irritação. E se atender era ruim, não atender era pior, pois achavam que a Natália tinha nascido e nós não tínhamos avisado. Ninguém merece!

 

Juntando tudo isso mais a minha dificuldade de dormir, as dores no quadril e as contrações irregulares (que nunca ritmavam) – coisas normais no final da gestação – vejo que poderia ter tido mais tranquilidade neste momento tão importante. Foi a primeira vez e já aprendemos: no próximo bebê, em vez de dizer a data provável do parto para 40 semanas, vamos falar a data para a 43ª semana, para ninguém achar que o bebê vai passar da hora quando eu ainda estiver com 37 semanas.

 

Dar à luz onde se sente segura

E foi no meio de tudo isso que eu vi, na véspera de entrar em trabalho de parto, com 39 semanas e 5 dias, um vídeo postado no site da Casa Moara, que me fez ter certeza absoluta que estávamos no caminho certo. Pude dormir tranquila. O trailer do filme O renascimento do parto foi crucial, pois em um dos depoimentos um médico fala: “A OMS diz que a mulher deve dar à luz onde ela se sentir segura. Algumas mulheres vão se sentir seguras em casa, outras em casa de parto e outras no hospital, mas todas devem ser atendidas pelo nosso sistema de saúde”. E eu sempre tive a certeza que me sentiria mais segura em casa, e em nenhum momento durante o parto me senti insegura e desamparada.

 

Estava com contrações irregulares havia três semanas, o tampão já havia saído há duas, e nada de um sinal animador de que o momento estava chegando. Com 39 semanas e 4 dias fui a uma consulta com a parteira, conversei sobre a minha angústia, ela me tranquilizou muito e, na hora do exame, uma surpresa: quatro para cinco centímetros de dilatação. E sem dor, somente um incômodo. Ela fez massagem no colo do útero, o que foi desconfortável.

 

Passei o resto da tarde sozinha em casa com cólica e sangramento, deitada, esperando o Mauro voltar de viagem. Agendei para o dia seguinte uma sessão de acupuntura, logo depois da última consulta com o médico. Essa consulta foi a mais chatinha, com muitas recomendações, pois após 40 semanas a monitoração teria que ser maior. Novamente uma massagem no colo do útero, que desta vez foi mais tranquila, acho que o colo estava mais fino. Fiz acupuntura, quase não dormi a noite, estava ansiosa e com contrações que me acordavam, mas não ritmavam.

 

Quando acordei, às 7h, fiz um “xixi pelo lugar errado”. Achei estranho, pois sabia que quando a bolsa estourava era muita água, mas não foi o que aconteceu. Liguei para a parteira lá pelas 10h e ela falou que devia ser uma ruptura alta, que poderíamos esperar. Pediu que eu caminhasse, para tentar acelerar as coisas. A hora tinha que chegar ou iríamos para o hospital na manhã seguinte. Fui ao salão a pé, fiz escova, pé e mão. Moro no 8° andar, fui e voltei pelas escadas. A tarefa não foi fácil, já que eu estava muito pesada.

 

“Tá com medo?”

Combinamos que à noite as parteiras viriam para a minha casa me examinar. Às 20h jantei muito bem, estava com fome. Por volta das 21h elas chegaram, prontas para o trabalho. Neste meio tempo já tinha tomado banho, me despedido da barriga, escrito uma carta para minha filha, e nada das contrações ritmarem. Novos exames, sete centímetros de dilatação e a bolsa estava íntegra, apenas a primeira membrana havia rompido. A Natália já estava com a cabeça na metade do caminho, de tão baixa. A parteira olhou bem nos meus olhos, parecia que estava lendo minha alma, e perguntou: “Tá com medo?” Respondi que não. Perguntou: “Então vamos fazer nascer?” Eu disse que sim. Ela colocou as agulhas nos pontos de acupuntura. Esperamos. Ela tirou as agulhas e pediu que caminhássemos pelo condomínio para ver se engrenava, senão elas iriam descansar e voltariam mais tarde.

 

Nesse meio tempo, as parteiras ligaram para a Daniela Andretto, minha doula (que não foi aquela lá do começo). Saímos eu e o Mauro a caminhar e logo veio uma contração mais forte. Caminhamos mais um pouco e o Mauro ficou receoso. Quis que voltássemos logo para conversar com as parteiras. Em seguida a Dani chegou, e lá pelas 23h, ela desceu comigo novamente. As contrações estavam mais fortes, mas nada assustador. Foi quando ela pediu que eu rebolasse, para ver se meu colo do útero ia para o lugar correto, pois estava virado para trás. Bastou uma rebolada e a dor veio forte. O colo encaixou! E o trabalho de parto ativo começou, assim como a chuva. Fomos para a garagem coberta e a Dani contava as contrações, que estavam de três em três minutos, cada vez mais longas. Saia de uma contração já olhando onde me apoiaria na próxima. Foi intenso, parecia uma câimbra na barriga, e as massagens da Dani fizeram mágica.

 

Tive muita vontade de ir ao banheiro e voltamos para a casa. Fui ao banheiro três vezes, meu corpo sabiamente estava limpando o intestino, não precisava de lavagem. As contrações estavam cada vez mais intensas. Entrei no chuveiro com uma touca plástica para não estragar a escova. A Dani entrou comigo. E, a cada contração, me dizia que eu estava indo bem, que era uma contração a menos, que a Natália estava cada vez mais próxima.

 

Eu quase não falava, estava muito concentrada. Mas de repente uma angústia e um medo tomaram conta de mim, e senti vontade de chorar. A doula me disse: “Chora, Dani, chora, que faz bem”. E eu chorei, chorei muito no ombro dela, chorei de soluçar. Esse choro me renovou, o medo passou e eu estava cheia de garra para colocar minha filha no mundo. Sempre que olhava para fora do boxe via meu marido ali, assistindo, esperando. De repente, senti um impulso para fazer força. É incrível, mas o corpo simplesmente faz força. Esperei mais uma contração e novamente o impulso. Falei para a Dani e ela foi chamar a parteira.

 

Ela veio, conversamos e ela explicou que teria de fazer novamente o toque para ver se eu já estava com dilatação total, pois sem isso não poderia fazer força. Quando a parteira foi buscar a banqueta de parto e a luva para o exame, ouvi um sonoro “ploc”. Olhei para o chão e vi que algo mais espesso escorreu com a água. Quando ela voltou, falei que achava que a bolsa tinha estourado. No exame ela constatou que sim, e que a dilatação era total. Estava finalmente no expulsivo, agora seria rápido.

 

Ele fazia força comigo

Não quis ficar mais no chuveiro, a água estava me irritando, sentia calor… Fui para o quarto e o Mauro sentou atrás de mim para me apoiar nas contrações. Naquele momento ele deixou de ser um observador e passou a ter papel ativo. A cada contração ele fazia força comigo, mas força de verdade, pensei até que ele também teria um filho… Ele transpirava mais do que eu. Tentamos inúmeras posições e, na minha percepção, a Natália demorava para nascer.

 

Eu estava ficando cansada, já estava havia quase uma hora fazendo força, mas todo o tempo as parteiras me diziam que era assim mesmo, que essa descida era milimétrica, que eu estava fazendo a força certa. Continuei. É surpreendente, mas naquele momento não sentia mais as dores da contração, apenas a necessidade de fazer força. Entre algumas contrações sentia uma cólica chata, que não me deixava cochilar. Sim, eu dava uns cochilos entre as contrações para recuperar a energia. Entendo hoje quando falam da “partolândia”. Até que as parteiras me falaram que estavam vendo os cabelinhos e pensei: ela tem cabelo! A doula e o Mauro trocaram de posição, pois ele queria ver a filha nascer. Antes eu tinha dito que não queria que ele visse minha vagina tão grande, mas na hora já não importava mais. Lembro da voz e da felicidade dele ao me falar que ela estava chegando, que dava para ver os cabelinhos. Isso me deu mais energia, mas estava ficando cansada. Então elas falaram que fariam o apoio na barriga. Que não iam empurrar, mas segurar para que ela não subisse após a contração.

 

Natália nasceu!

E foi então que ela coroou, era o círculo de fogo! A parteira fez massagem no meu períneo para ajudar e senti uma queimação na parte anterior da vagina e na uretra. Mas ela não saiu. E eu gritei: “Tira! Tira!”, sentindo dor. Todos me acalmaram: ela estava saindo, faltava pouco. Mais uma contração e saiu a cabeça toda. Na próxima, o corpinho, limpinho, sem sangue. Antes mesmo de nascer completamente ela já chorava forte, como faz até hoje. Eram 2h26 do dia 2 de dezembro. Eu estava completando 40 semanas de gestação. É difícil explicar o que senti naquele momento: uma paz e uma felicidade tão grandes que foi como se o mundo tivesse parado. Cheguei ao nirvana, me senti plena, completa.

 

E a colocaram no meu colo. Ó meu deus, como ela chorava. Tentamos fazê-la mamar, mas ela não quis. O Mauro cortou o cordão, ela foi examinada e logo foi para os braços do pai. As lágrimas escorriam pelo seu rosto, e ele estava feliz como jamais vi na minha vida.

 

A experiência de ter tido a minha filha em um parto natural, cercada de pessoas desejadas e com a segurança de estar bem assistida, fez com que realmente nascesse uma nova mulher. O médico havia me falado, na véspera do parto, que eu morreria como mulher e nasceria como mãe, mas na hora eu não entendi a profundidade dessas palavras. Hoje entendo. E vejo que nunca uma cesariana me proporcionaria essa experiência. Quando me perguntam sobre a dor (curiosidade máxima das pessoas, já que não recebi anestesia), falo sempre o que acredito: dói sim, dói muito, mas a dor não é só física, é a dor emocional, a despedida daquela mulher que morre e a chegada da mãe. Dói o medo da mudança, o medo de ser mãe, de não ser capaz, de não dar conta do recado, de ter feito algo errado, de ter um filho com problemas. O medo da mudança da vida, do desconhecido, a sensação de não poder voltar atrás. Essas foram as maiores dores: a dor física torna-se irrelevante diante de tantas coisas que passam na cabeça e no coração.

Agora faltava pouco. Era só sair a placenta. A parteira ainda elogiou o meu períneo, que estava bem preparado e não teve nenhuma laceração. Não fiz yoga, dieta, dança ou academia, mas preparei o períneo com uma fisioterapeuta maravilhosa! Comprei o Epi-no (aparelho que auxilia na preparação do períneo para o parto) e decidi que queria ter o períneo íntegro após o parto. Essa foi a única preparação física que fizemos (sim, o Mauro ajudou muito).

 

 

 

A placenta

A parteira me pediu que fizesse mais uma forcinha, mas nada de a placenta sair. Ela tentou um procedimento e eu quase morri de dor. A outra parteira me falou que poderíamos tentar novamente aquele procedimento, mas que, se a placenta não saísse, teríamos de ir para o hospital. Eu disse que preferia o hospital, não aguentaria mais uma tentativa. O problema é que a placenta estava pelo menos parcialmente descolada, pois eu estava perdendo sangue, mas ela não saía. Amamentei muito, pois amamentar ajuda a placenta a sair, mas nada ajudava. Neste meio tempo o médico foi avisado. Fizemos acupuntura, e nada.

 

Era hora de ir para o hospital. Acionamos o plano de saúde, que é um dos melhores, mas eles demoraram mais de uma hora para avisar que não teriam ambulância disponível. Entraram então em contato com o SAMU, que atendeu o chamado com uma certa demora, mas a tempo. Se demorasse mais alguns minutos, teríamos ido de carro mesmo, pois já estava amanhecendo e eu ainda perdia sangue.

 

Toda a espera foi deitada, e a minha remoção teve que ser feita de cadeira de rodas. Quando sentei na cadeira e desmaiei, meu marido quase infartou. Mas recobrei a consciência em segundos e fui bem acordada para o hospital. Chegando lá o médico me esperava na porta do bloco, todo paramentado, e a sala cirúrgica já estava pronta. Não aguentava mais tantas contrações. Novamente as parteiras estavam comigo, eu estava segura. O médico explicou tudo, que ele acreditava que a placenta estava parcialmente enraizada na parede do útero, que ele tentaria alguns procedimentos, mas que, dependendo do caso, a retirada do útero seria necessária. Falei que isso não iria acontecer, pois queria ter mais um filho.

 

Ele também me falou que poderia ser necessário fazer uma espécie de cesariana para retirar a placenta. Fala sério! O bebê nasce de parto normal, e a placenta, de cesariana? Quando conversamos sobre o parto, a parteira falou que o períneo estava íntegro, mas ele afirmou que, com os procedimentos, eu poderia ter alguma laceração. Não acreditei! Depois de um parto lindo com períneo íntegro, ia ter lacerações! Falei para ele que isso também não iria acontecer. Em seguida, ganhei uma anestesia geral.

 

Acordei e recebi ótimas notícias: a placenta tinha sido retirada, meu útero estava lá, inteiro, meu períneo continuava íntegro e tudo ia ficar bem. A placenta tinha descolado, porém, por causa de uma contração anormal, meu útero formou um anel que a prendeu. Mas, como tudo tem um mas, a unidade de tratamento semi-intensivo estava lotada e, entre me mandar para o quarto e para a UTI, me mandaram para a UTI, pois eu havia recebido transfusão de sangue e estava de sonda.

 

Num primeiro momento, acreditei que sairia de lá no mesmo dia. Mas, por protocolo, as altas da UTI são pela manhã. Foi muito difícil ficar na UTI sozinha, sem me mexer direito por causa da sonda, preocupada com a minha filha, que eu sabia que estava bem cuidada, mas que não estava comigo. Apesar de estar ótima, nem ao menos autorizaram a retirada da sonda, que incomodava e não me permitia ir ao banheiro.

 

Naquele dia virei xodó da UTI, recebia toda a atenção, afinal, era a única cheia de energia naquele lugar. Por volta das 21h, finalmente vi o Mauro. Ele tinha descansado durante o dia, após a minha saída da sala cirúrgica. Quando começamos a conversar, ele desabou no choro. Passamos por muita coisa. Chorei junto.

 

O que nos consolava era o fato da nossa filha estar bem, não ter recebido injeções, colírio, aspiração. Foi um momento difícil. Depois que ele foi embora, pedi um remédio para dormir, pois estava muito angustiada e agitada com toda a situação. Meu pedido foi prontamente atendido, mas o remédio não fez o menor efeito.

 

O reencontro

Chorei muito à noite, queria a minha bebê, queria dar a ela o colostro que pingava dos meus seios. Por volta das 4h da manhã, vieram oferecer uma dose maior, mas havia a possibilidade de ficar sonolenta no dia seguinte. Não aceitei, pois queria estar a todo vapor para cuidar da minha filha. Consegui dormir um pouco, mas às 8h já estavam coletando sangue e fazendo exames. Finalmente tiraram a sonda e pude ir ao banheiro. Por volta das 10h, todo mundo chegou: o médico, uma das parteiras e o Mauro. Falaram que a Natália estava lá fora, esperando eu ir para o quarto. Logo conseguiram convencer a enfermeira a deixá-la entrar, mas ela pediu apenas que eu não amamentasse ali. Quando a trouxeram no bebê conforto, dormindo, quase explodi. Ao chegar ao meu colo, ela imediatamente procurou o peito: eu não tive como segurar, amamentei na mesma hora. Finalmente estava com a minha filha!

 

Depois de um tempo, tive alta da UTI e esperamos liberarem um quarto. O Mauro foi primeiro, e em seguida me levaram. Estava muito feliz, louca para ficar com a minha família. A Natália e o Mauro dormiram, e eu fui tomar um banho: precisava muito lavar o corpo e a alma. Quando a enfermeira entrou, ficou surpresa por eu ter tomado banho sozinha. Ninguém me falou que iria me dar banho, e eu estava ótima, apenas com uma dor no corpo de tanto ficar deitada na mesma posição, já que a sonda impedia qualquer movimentação.

 

Tínhamos de esperar o resultado do último exame antes de ter alta. Tentei descansar, mas não consegui, pois era sábado e tinha muita gente nos corredores, parecia uma festa. Queria ir para casa. Precisava trocar a fralda na Natália, mas no quarto não tem trocador. A enfermeira se propôs a levá-la para o berçário, mas percebeu que ela não estava internada. Troquei a fralda em cima da cama, em posição de índio, o que reparei depois, e ainda tomei um puxão de orelha por que estava com uma das grades abaixada, como se um bebê recém-nascido fosse rolar para o chão durante a troca.

 

A enfermeira se deu conta e pediu desculpas, afinal sou mãe e sou capaz de cuidar da minha filha! Antes de sair, veio outra enfermeira com um questionário rápido. Ela perguntou: “urinou?” Eu disse que sim. Depois afirmou: “Não evacuou, né?” Respondi que sim, e ela me olhou com cara de espanto. Percebi que mesmo com tudo o que tinha acontecido, estava melhor do que muita gente. E às 21h saímos do hospital e voltamos para a nossa casa, de onde eu nunca queria ter tido que sair.

 

Todo o trabalho de parto foi um grande aprendizado para mim, principalmente porque sou muito sem paciência e esperar foi realmente complicado. Houve momentos em que pensei que a Natália fosse ficar dentro de mim para sempre, dada a minha angústia. Mas a minha teoria foi comprovada (comigo, pelo menos): a gestação e o trabalho de parto nos preparam para sermos mães. Minhas amigas sempre falaram das angústias de ser mãe, da insegurança de estar fazendo certo ou errado, das crises de choro, mas eu não senti nada disso. Quando a Natália nasceu, tudo passou, todos os medos. Sinto-me hoje uma supermulher, capaz de tudo, principalmente de cuidar da minha filha, que EU fiz e EU coloquei no mundo.

 

Infelizmente sinto hoje uma certa frustração por não ter conseguido encerrar o processo de forma natural, pela placenta que não saiu. As coisas desagradáveis que senti foram em decorrência das intervenções necessárias, mas não naturais. Mas tenho certeza que no próximo parto curo essa ferida. Continuo acreditando no parto natural: é lindo e saudável!

Please reload

Siga a Moara

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon

Bebês e crianças têm atividades musicais e sensoriais na Casa Moara

October 15, 2019

1/10
Please reload

Em Destaque

Leia por Tema

Posts Recentes

Please reload

Fotografias por:  Kátia Ribeiro,  Bia Takata, Lela Beltrão, Marcelo Min, Cristiane Pereira e Carla Raiter / Acervo Casa Moara