Gil nasceu na água com a irmã iluminando o caminho

29/06/2012

O parto domiciliar de Tatiana começou ser planejado quatro anos atrás, quando teve sua primeira filha no hospital e algumas coisas lhe desagradaram. “Foi uma decisão muito amadurecida, muito planejada e sobre a qual eu não tinha a menor dúvida.”

 

 “Logo que Gil nasceu, Nina se aproximou, com uma carinha comovida e feliz. Vou me lembrar da expressão dela para sempre.”

 

Relato de Tatiana, mãe de Nina e Gil, em depoimento a Luciana Benatti (junho de 2012)

 

O planejamento do parto do Gil começou quando a Nina nasceu e algumas coisas no hospital não me agradaram. A começar pela própria ida até lá – foi bem chato entrar no carro com contrações. A admissão também foi horrível, apesar de eu estar num hospital que se diz humanizado. É aquela coisa protocolar: chega, senta na cadeira de rodas, depois fica deitada monitorando contração, de barriga para cima, 15 minutos, sem opção de mudar de posição.

 

Minha filha nasceu de parto normal, há quatro anos e meio. Naquela época, eu não tinha o sonho de ter um parto em casa, essa não era uma questão para mim. Eu achava que no hospital, tendo a sala de parto natural, ia ser tudo bem. Mas, quando cheguei, a sala estava ocupada, então fiquei no pré-parto, muito desconfortável, num box apertado, onde entrava vento pela janela e eu passava frio. Lembro muito da sensação de desconforto. O parto foi com médico do convênio, que fez bem a parte dele, mas em alguns momentos tive medo de virar uma cesárea desnecessária ou de ter uma episiotomia sem precisar.

 

Como as coisas não saíram muito conforme o esperado, logo que ela nasceu eu sabia que meu próximo filho eu queria que nascesse em casa. Então me preparei muito para isso nesses quatro anos e meio. Uma decisão que foi muito amadurecida, muito planejada e sobre a qual eu não tinha a menor dúvida. Desta vez eu queria ter mais paz, mais privacidade e escolher realmente um por um que iria estar comigo nesse momento.

 

O Gil nasceu com duas parteiras, e uma doula, a Maíra Duarte. Além delas, estavam aqui o Guga, meu marido, e a Nina, minha filha, que também foi preparada desde o começo da gravidez para estar presente. Eu imaginava que isso aconteceria, e assim foi.

 

Ele nasceu na madrugada de domingo para segunda-feira, 4 de junho de 2012. Uma amiga minha, muito próxima e com quem a Nina fica muito à vontade, a Amanda, veio para a minha casa, encarregada de ficar com minha filha em alguns momentos em que ela sentisse necessidade de circular um pouco mais, me dar um pouco de espaço. E foi muito bom ter feito esse esquema porque eu estava só com pessoas com quem me sinto muito à vontade.

 

 

“Logo que saí do chuveiro, recebendo massagem da Maíra e dormindo entre as contrações.”

 

Começou assim. Eu fiquei uma semana tendo pródromos, com umas contrações que eu não levei muito a sério porque via que não engrenavam muito. Às vezes, ficava uma hora tendo contrações, bem espaçadas. No outro dia, eu tinha três a oito contrações mais doloridinhas, mas via que não era trabalho de parto.

 

No domingo em que ele nasceu, acordei emocionalmente diferente, mais sensível, e percebi que as contrações estavam um pouco mais constantes. Fui ao banheiro e notei que o tampão mucoso tinha saído. Liguei para a doula e avisei. Ela veio para cá, almoçou com a gente e ficou acompanhando para ver se ia engrenar ou não. Eu estava tranquila, com contrações ainda espaçadas, mas muito mais do que durante a semana. Deixei as parteiras avisadas.

 

No fim do dia, a doula foi para casa. Voltaria mais tarde. Por telefone, a parteira perguntou se eu queria uma acupuntura. Explicou que, se fosse trabalho de parto, ia ajudar a engrenar. Se não fosse, não ia acontecer nada. Falei que sim. Ela veio. Chegou um tempo depois que a doula foi embora.

 

A Nina estava passeando com os tios, então nesse meio tempo eu e o Guga ficamos um tempo a sós, tranquilos em casa, uma coisa que eu queria muito. Curtimos juntos esse momento de saber que o bebê estava chegando, estava perto. Ficamos um pouquinho juntos, namorando. Depois ele tinha que sair para trabalhar. Eu estava muito tranquila, ao contrário da primeira vez, quando eu não queria que ele saísse de perto de mim nem por um minuto. Desta vez, eu sabia que ia dar tempo. Eu estava muito segura de que as coisas iam acontecer num tempo em que tudo ia ser contemplado.

 

A parteira chegou e a acupuntura que ela fez ajudou a engrenar as contrações. Aí tivemos certeza de que era trabalho de parto mesmo. Eu já estava com quatro para cinco de dilatação. A Nina chegou em casa dormindo e assim passaria um bom tempo.

 

Depois da acupuntura, desci, comi alguma coisa, subi, fiquei um tempinho sentindo as contrações até que resolvi ir para o chuveiro, um dos momentos mais intensos do trabalho de parto. Quando fui para o chuveiro, a parteira e a doula acharam que já era hora de avisar o Guga para ele voltar para casa, o combinado era esse.

 

A Nina continuava dormindo. Nesse momento, eu quis ficar bem quietinha, sozinha. Estava muito concentrada, senti o bebê fazer o primeiro movimento grande, a primeira parte do giro. Eu estava sentindo tudo do jeito que esperava que ia ser, a contrações estavam muito fortes, mas eram plenamente suportáveis e em nenhum momento pensei em ir para o hospital tomar anestesia.

 

Eu estava conseguindo lidar muito bem com aquilo, a água ajudava a aliviar a dor das contrações, e eu tinha momentos prazerosos mesmo, de sentir meu corpo funcionando, o bebê rodando, tudo acontecendo como tinha que acontecer. Eu me sentia muito conectada comigo mesma, com ele, foi uma parte muito especial, de sentir de um jeito forte a importância desse momento, a chegada dele, sentir que ele estava cada vez mais perto.

 

“Passei muito tempo concentrada e em silêncio. Estar na água me proporcionava alívio da dor, conforto e uma sensação de acolhimento.”

 

Fiquei um bom tempo no chuveiro, nem sei quanto, umas duas horas, imagino. E eu sabia que ia querer, em algum momento, ir para a banheira. Tinha pedido para as parteiras trazerem. Sabia também que alguma hora eu teria que sair do chuveiro para poderem montar a mangueira que levaria água para a banheira. E aí fiquei me preparando para isso. Eu sentia que não ia conseguir sair da água a qualquer momento.

 

No chuveiro tentei fica sobre a bola, mas não me adaptei muito bem, depois tentei um banco. Mas o jeito que fiquei melhor foi sentada no chão sobre uma toalha. Eu ia me movimentando, fazendo o que o meu corpo pedia de movimento, às vezes ficava bem parada também, até que uma hora avisei que estava pronta para sair. A banheira já estava montada no meu quarto e tinha um colchão ao lado.

 

Saí da água e fui para esse colchão. Esse momento, que achei que seria difícil porque eu já estava com contrações muito fortes, acabou sendo um momento muito tranquilo e prazeroso do trabalho de parto. Eu tinha contrações fortes, mas dormia entre uma e outra. A doula me fazia uma massagem maravilhosa com óleo morno na lombar, muito relaxante. E esses cochilos eram muito gostosos. Foi um momento de reunir forças, como uma recarga de bateria.

 

Enquanto isso foram enchendo a banheira. As parteiras ainda estavam com um pouco de dúvida se seria legal entrar na água naquele momento ou se talvez fosse melhor esperar. No fim, todo mundo achou que tudo bem. Eu queria muito entrar na água e não estava achando que fosse desacelerar o trabalho de parto.

 

Logo que entrei na água, tive um puxo forte. Eu ainda não estava com dilatação total. Mas foi um só. Entrei na água e fiquei uma hora sem ter outros, mas sentia meu corpo trabalhando. As contrações vinham e eu continuei recebendo massagem, a massagem dentro da água é mais gostosa ainda! Nem tenho muita ideia de quanto tempo fiquei na banheira. Eu estava completamente concentrada, não fazia o menor sentido pensar no tempo, querer saber que horas eram. Eu sentia que os tempos eram os que tinham de ser.

 

O Guga então entrou na banheira, atrás de mim, me dando suporte. Foi gostoso também ter esse momento com ele. A Nina aparecia, ficava um pouco com a gente, depois ia dar uma volta, brincar, comer alguma coisa. Ela vinha, me fazia um carinho, queria saber se eu estava bem. E assim ela foi participando, do jeitinho dela. Deram umas funções para ela, umas coisas para se distrair também, mas ela estava muito serena na situação, estava muito bem. Não se assustou com nada, lidou com tudo isso com muita naturalidade.

 

Depois de um tempo na banheira, chegou uma hora em que senti necessidade de perguntar algo para as parteiras. Eu falei assim: “Quero que vocês me falem alguma coisa”. Foi a primeira frase que eu disse depois de muito tempo em silêncio. Elas perguntaram o que eu queria saber. Aí, falei: “Quero saber onde estou, quanto tempo falta, o que esta acontecendo”. Elas perguntaram se eu queria que fizessem um toque, para saber como estava a dilatação. Para elas não era importante saber isso naquele momento, mas, se fosse importante para mim, elas fariam. Eu poderia escolher fazer esse toque ou não, porque tudo estava visivelmente evoluindo bem.

 

Eu não quis, porque sentia mesmo que estava tudo bem. Foi mais uma necessidade minha de saber até onde ia, se alguma coisa estava mudando. Talvez tenha sido a única hora que me bateu um pouco de ansiedade, necessidade de verbalizar alguma coisa e de ouvir o que elas tinham para dizer. E elas falaram que estava tudo bem, eu estava ótima, era assim mesmo, estava dando tudo certo.

 

“Ao redor da banheira Nina firme na missão de iluminar o caminho do irmão, Priscila, Marcia e Maíra a postos, me encorajando e esperando o bebê chegar. Guga entrou na banheira comigo, o que foi muito gostoso e ajudou bastante enquanto os puxos vinham fortes.”

 

Passou um tempo e eu comecei a ter outros puxos. Não estava ainda com dilatação total. A Márcia olhou e viu que tinha um rebordo de colo do útero em volta da cabeça do nenê. E os puxos estavam vindo já bem fortes. Acabou que nem precisou tirar o rebordo com a mão, pois tomei uma homeopatia que ajudou esse restinho a sair de lá. E aí o bebê foi descendo, eu senti na banheira outra volta grande dele. Senti que estava vindo, estava descendo.

 

Os puxos eram uma sensação incomparável, uma força do corpo que não é parecida com nenhuma outra sensação que a gente tenha na vida. Ao mesmo tempo em que é muito forte, muito intenso, é gostoso sentir aquilo, sentir que o bebê está vindo, descendo. E dá a sensação de reta final mesmo, de que alguma coisa está mudando e está mais perto.

Junto com os puxos, me veio uma energia. E eu comecei a falar mais, a chamar o bebê, a falar que eu queria que ele viesse, que ele nascesse, que ele era muito bem-vindo e que a gente estava esperando por ele. Eu falava para ele me ajudar, para fazer a parte dele, que juntos conseguiríamos fazer ele vir para o mundo.

 

Fui sentindo ele descer, senti quando a cabeça começou a chegar no períneo. Ele vinha e voltava. Fez esse ir e voltar algumas vezes até que a cabeça ficou. Foi um expulsivo de mais ou menos uma hora. O apoio das parteiras, da doula e da amiga que estava aqui foi fundamental. Eu olhava para elas e isso me encorajava muito. Era muito bom ter aquelas mulheres em volta, ter o meu marido me apoiando. Elas falavam poucas coisas, mas muito significativas, muito especiais. Falavam para eu ter coragem, para ir para a luz, não ir para o desespero quando a dor era mais forte, para respirar.

 

Quando o bebê chegou lá, quando a cabeça chegou no períneo e ficou, a parteira me falou para assoprar em vez de continuar a fazer força. Isso foi decisivo porque no primeiro parto eu tinha tido uma laceração de segundo grau e dessa vez eu queria muito não ter. Queria um pós-parto sem pontos porque isso tinha me incomodado bastante quando a Nina nasceu.

 

 

 “Com Gil, enquanto o cordão ainda pulsava. À direita, Amanda, minha querida amiga, que vinha em princípio pra cuidar da Nina e também cuidou de mim, fotografou, carregou baldes de água e muito mais. Uma curiosidade: no dia em que a Nina nasceu, Amanda estava longe, fora do país e pressentiu sua chegada. Nina gosta muito dela e eu sabia que sua presença a deixaria muito segura e à vontade.”

 

Curiosamente, quando faltavam uns cinco ou dez minutos para o bebê nascer, a Nina, que estava vendo um filme, ou, sei lá, fazendo outra coisa fora do quarto, veio espontaneamente. A gente ia chamá-la para ver o bebê nascer, mas ela veio por conta própria. Deram para ela a função de ficar segurando uma lanterninha, iluminando o caminho do bebê. E ela ficou lá, com a maior responsabilidade. Acho que se sentiu muito importante de participar daquele momento, daquele jeito. O trabalho dela era iluminar, e ela ficou firme ali.

 

Depois que a parteira me falou para assoprar em vez de continuar a força, que foi o que eu fiz, vieram umas duas ou três contrações e ele começou a sair devagar. Nesse meio tempo, meu períneo teve tempo de se adaptar para a saída dele, e não machucou: tive uma laceração muito, muito micro, no mesmo lugar onde tinha sido no parto da Nina. Não precisou costurar, não me incomodou em nada no pós-parto, foi tudo ótimo. E aí ele nasceu! E quando nasceu foi aquela emoção toda de conseguir, de receber o bebê ali na água, que era o jeito que eu queria. Por mais que eu não tivesse idealizado muito, acho que no fundo eu gostaria muito que ele nascesse na água.

 

Ele nasceu e eu fiquei muito feliz de poder olhar para a minha filha imediatamente e ver a carinha dela, comovida, vendo o irmão chegar. Acho que isso fez com que ela participasse do nascimento dele, como alguma coisa que pertenceu a ela também. É um privilégio que poucas crianças têm, de poder ver o irmão nascer. E isso eu imagino que crie para ela uma sensação de continuidade, de fazer parte disso: ela iluminou o caminho dele para ele chegar, acho isso muito bonito.

 

Quando ele nasceu, ficou um pouquinho na água comigo e com o Guga. A Nina, que estava na frente, iluminando, deu a volta na banheira, foi para perto da doula e a abraçou. Ficou olhando para a gente e me fez um carinho, fez um carinho no neném. Logo eu comecei a ter as contrações para a saída da placenta. E achei que o neném estava com um pouco de frio. Dei o bebê no colo da parteira, que o enrolou na toalhinha enquanto o Guga se secava para pegá-lo no colo.

 

Aí a Nina se aproximou dele, ficou olhando de perto, fazendo carinho. Enquanto isso, a parteira me ajudava com a saída da placenta, que foi tranquila, rápida, em poucas contrações. Logo eu saí da água, fui para o colchão e fiquei lá amamentando. Foi tranquilo esse começo da amamentação: ele logo pegou o peito, certinho, e começou a mamar. Enfim, foi muito especial, um trabalho de parto de umas oito ou dez horas, muito aconchegante, tudo no meu ritmo, do jeito que eu esperava.

 

Uma amiga que está grávida me perguntou depois o que eu tinha achado de prós e contras de ter o filho em casa. Eu falei que não tinha achado nenhum contra porque tinha sido tudo muito perfeito. Não teve nenhuma questão, foi tudo muito natural e eu estava muito concentrada e preparada, o que fez toda a diferença.

 

Eu estava muito segura da decisão de que ele nascesse aqui, com essas pessoas presentes, então fiquei muito feliz com tudo o que aconteceu. Desde o comecinho, pude passar um dia mais tranquila, descansar, ficar um pouco só com o meu marido, depois ficar com elas aqui sem interferência externa. No hospital, tinha me incomodado muito o entra-e-sai de gente, pessoas que eu não conhecia, que nem queria que estivessem por perto.

 

Nada se compara com estar na própria casa, fazer as consultas do pós-parto em casa. É muito mais confortável, muito mais gostoso, muito mais pessoal. As parteiras têm uma outra relação com o evento parto. É incomparável a qualidade da atenção, a presença mesmo, o jeito de dar suporte, de encorajar. O tipo de vínculo que se estabelece com a equipe é muito mais próximo. Eu gostei muito de só ter mulheres nesse parto, além do meu marido. Se eu vier a ter um terceiro filho, não imagino outro jeito de ele nascer que não seja em casa!

 

 

 

“Gil, seja bem-vindo! Sou muito feliz por você ter nascido numa atmosfera tão tranquila e amorosa e por termos vivido tudo isso juntos, você, eu, seu pai e sua irmã, tão lindamente amparados e acompanhados.”

Please reload

Siga a Moara

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon

Disciplina positiva; o que é e como colocar em prática?

November 12, 2019

1/10
Please reload

Em Destaque

Leia por Tema

Posts Recentes

Please reload

Fotografias por:  Kátia Ribeiro,  Bia Takata, Lela Beltrão, Marcelo Min, Cristiane Pereira e Carla Raiter / Acervo Casa Moara