Se fui capaz de gerar um bebê, posso também colocá-lo no mund

Como tantas mulheres, ao longo da vida Daniele foi bombardeada por todo tipo de imagem negativa de partos normais. Quando ouviu falar de parto humanizado pela primeira vez, achou tudo muito radical. Mesmo assim, resolveu se informar. Durante a gravidez, participou dos encontros de gestantes da Casa Moara e fez aulas de yoga para gestantes. Com isso, resgatou sua essência feminina, retomou o contato com sua força natural e passou a ter a convicção de que, se havia sido capaz de gerar um bebê, tinha toda a condição de colocá-lo no mundo! Assistida por uma equipe humanizada, deu à luz Isadora dentro da banheira, 50 minutos depois de chegar ao hospital.

 

 

 

Acordei no sábado, por volta de 8 horas, sentindo uma leve cólica. Foi uma sensação diferente, achei suspeita, mas sabia que poderiam ser apenas contrações inocentes ou pródromos (contrações preparatórias, fora do trabalho de parto). Comentei com meu marido, Fábio, e estava tranquila.

Fui para a aula de yoga para gestantes e, durante os exercícios, especialmente no relaxamento, senti mais umas três vezes essa dorzinha leve – como uma cólica menstrual fraquinha. Ao longo da aula, a Katia Barga – instrutora de yoga para gestantes e doula que escolhi para me acompanhar no parto – caprichou nos agachamentos e posturas para “estimular” o trabalho de parto. Digo estimular entre aspas, pois não há nada (natural) que seja capaz de provocar diretamente um trabalho de parto, mas é possível estimular o corpo a iniciar este processo. Pensei em comentar com ela sobre esses incômodos, mas ao final da aula tinha muita gente por perto e preferi não “alarmar” ninguém.

 

Yoga no início do trabalho de parto

 

 

O Fábio foi me buscar e, ao sairmos da Casa Moara fomos comprar algumas coisinhas de última hora. Voltamos para casa e pensamos em sair para almoçar, mas preferi ficar em casa e descansar um pouco. Nessa fase da gravidez, tudo cansa. E achei que “se fosse o dia” era melhor descansar.

Uma amiga veio almoçar conosco, conversamos e demos risada. Não comentei nada com ela, pois de fato não sabia dizer se aquelas cólicas tinham algum significado. Fazia um calor terrível. Ficamos a tarde toda debaixo do ventilador, cochilei. O dia foi passando assim.

À tarde avisei a doula por torpedo e ela me recomendou repouso. Ao longo do dia fui diversas vezes ao banheiro e achei que esse era um sinal de que eu de fato poderia estar entrando em trabalho de parto, afinal sabia que a perfeição da natureza faz com que o organismo providencie uma espécie de limpeza intestinal natural antes do parto.

Ao final do dia, novamente pensamos em sair para comer alguma coisa, mas acabamos decidindo tomar um lanche na padaria perto de casa. Fomos a pé. No caminho, notei que as contrações estavam ritmadas – isso era por volta de 20h30. Jantamos e, na volta, decidimos contar as contrações. Entre 21h e 22h, foram dez, com intervalos de 6 minutos e duração de uns 30-40 segundos. Avisamos a doula novamente.

 

Ela decidiu comunicar a parteira – enfermeira obstétrica que auxiliaria no parto – que estava na praia com a família. Ao me informar da viagem, ela havia me pedido para avisá-la sem demora caso sentisse algum sinal de trabalho de parto, que ela voltaria.

Marcamos mais uma hora e os intervalos entre uma contração e outra começaram a diminuir. Por volta de 23h, a parteira decidiu subir a serra e permanecer “de plantão” aqui em São Paulo. Nessa altura do campeonato, as contrações começaram a ficar mais doloridas. Eu me concentrava durante o momento da contração, mas nos intervalos me sentia ótima. Decidi tomar um banho e ficar no chuveiro relaxando. Até aqui eu estava muito bem, achando que ainda havia muito pela frente e ainda (acreditem!) sem ter certeza se estava em trabalho de parto.

 

Conversei com a doula por telefone algumas vezes. Disse a ela que estava bem e que quando as sensações estivessem mais intensas, eu ligaria. Saí do chuveiro e as contrações começaram a se intensificar. Fiz xixi e notei que o tampão (secreção que protege o colo do útero) estava saindo. Nesse momento, e só nesse momento, pensei: é hoje! Deu um frio na barriga. Literalmente!

 

Em mais ou menos meia hora, senti que estava muito tensa e que a dor estava começando a ficar forte. Pedi para a doula vir para a minha casa. As contrações vinham de três em três minutos e duravam cerca de um minuto. Comecei a me desesperar. O Fábio já não sabia como me ajudar, e eu não encontrava nenhuma posição que aliviasse a dor. O calor também incomodava muito.

A doula chegou na hora certa. Eu estava me deixando tomar pela tensão e isso estava tornando a dor insuportável. Ela me abraçou e me acalmou com seu olhar cúmplice e tranquilo, o que foi fundamental para mim e também para o Fábio, que já estava no limite de sua condição de me apoiar. Quando a doula chegou, ele me deixou com ela e foi cuidar de colocar as coisas no carro e organizar tudo para nossa ida à maternidade – o que foi ótimo!

 

Ela me ajudou a respirar e retomei a concentração – tão importante neste momento. Senti que, se ela não tivesse chegado naquela hora, o desespero tomaria conta de mim e só faria a dor aumentar.

Estava com muita dificuldade de encontrar uma posição confortável. A doula sugeriu voltarmos ao chuveiro, mas o calor e a água quente não combinaram. Comecei a ficar nervosa novamente, tensa pela dor e pelo que “estava por vir”. A dor, o incômodo da água quente e a tensão chegaram a me causar náusea e achei que fosse vomitar. Decidi sair imediatamente do chuveiro. Nessa hora, a doula ligou novamente para a parteira e concluímos que seria o momento de ir para o hospital.

Pensar em entrar no carro, chegar na maternidade e passar por toda a burocracia e os trâmites que eu sabia que existiam me apavorou. Eu queria chegar lá e ir para a banheira, mas não queria ter de me deslocar. Comecei a me sentir insegura e disse para a doula que estava chateada, pois sentia muita dor e me abatia muito cedo. E perguntava: se já estou assim agora, como é que vou aguentar até o fim? Minha expectativa era de que muita coisa ainda estava por vir.

 

Katia havia chegado em casa por volta da 1h15 da madrugada. Lá pelas 2h30 saímos para o hospital. O Fábio cobriu o banco de trás com uma toalha (caso a bolsa, que ainda estava intacta, rompesse no carro) e voou para a maternidade. Não pegamos trânsito, nem faróis fechados. Estava muito tensa, mas me concentrei muito, respirei profundamente e consegui me manter relativamente bem durante todo o caminho e nas duas contrações que tive no trajeto.

 

A parteira estava lá à nossa espera. Vê-la foi uma verdadeira benção. Que mulher maravilhosa!Fábio ficou dando entrada na maternidade e descarregando o carro e nós entramos para a triagem. Tive muita sorte, pois a equipe de plantão conhecia a parteira e deixou que ela mesma me examinasse. Havia ouvido dizer que exames de toque, antes e durante o trabalho de parto, eram muito doloridos. Porém, ao contrário da minha expectativa, não senti nada!

 

A parteira, até com certa surpresa, avaliou: 10 cm, dilatação total! Ficamos felizes, e eu, um tanto assustada. Ela me perguntou se tinha sentido a tal vontade de fazer força. E eu disse que não. Ela saiu para ligar para a obstetra e o pediatra neonatologista, além de avisar o Fábio. Ele ficou muito feliz e surpreso. Mas teve que voltar, em seguida, para a recepção da maternidade para finalizar os trâmites burocráticos da internação.

A enfermeira me liberou logo do exame e perguntou se eu gostaria de uma cadeira de rodas ou maca para subir para a sala de parto. Eu disse que preferia ir caminhando mesmo. As duas salas de parto normal estavam disponíveis. Escolhemos aquela com a maior e mais confortável banheira.

 

Amparada pela doula, caminhei pelo percurso mais longo e inusitado da minha vida. Ao me aproximar do elevador, senti uma nova contração, porém algo sem precedentes também ocorreu: a tal vontade de fazer força ou “puxo”, como se costuma dizer. Olha, foi um negócio muito louco! Porque é algo realmente instintivo e involuntário. Não há uma análise, uma avaliação prévia, do tipo: hummm, acho que estou com vontade de fazer força. Você simplesmente faz!

 

A enfermeira que estava na porta do elevador, já com cara de “Meu Deus, o que é isso?”, nesse momento, quase enfartou. Eu olhei para a doula e ela entendeu tudo. Apressamos o passo. Hoje lembrando dá muita vontade de rir, pois a cena, vista de fora, deve ter sido hilária. Mas, naquele momento, comecei a sentir medo.

 

 

 

Tenho total consciência de que esse medo se deu por algumas razões. A primeira delas porque o expulsivo sempre foi para mim o momento mais delicado e difícil de imaginar. É nessa hora que todos os fantasminhas da nossa mente ganham força e dimensão. Tinha medo da dor, de uma laceração no períneo, mas, acima de tudo, tinha medo do nascimento da minha filha. Medo de enfrentar todos os desafios da maternidade, a mudança irremediável que um filho traz para a vida. Medo da mãe que eu seria. Medo do meu nascimento como mãe.

 

Entrei na sala e a parteira já estava lá, preparando a banqueta de cócoras. Não me senti confortável na banqueta. Quando as contrações vinham, essa posição não me favorecia. Hoje percebo o quanto toda aquela “correria”, a movimentação e o ambiente hospitalar podem ter potencializado essa sensação. Em instantes, a médica chegou e juntou-se à parteira para me apoiar. A doula também permaneceu ao meu lado. Apesar da dor, eu estava bem e consciente. Sentia que os puxos estavam cada vez mais fortes.

 

O Fábio não chegava nunca e eu estava com medo que ele perdesse o nascimento da Isadora. Além disso, soube que o pediatra que acompanharia a chegada da pequena estava preso em um plantão. Ele solicitou que uma colega nos atendesse. Eu estava ansiosa pela chegada dela, pois só com sua presença é que teríamos liberdade para ir para a banheira para, se fosse o caso, a Dorinha nascer na água.

 

Nessa altura, pedi à doula para telefonar para meu marido e saber onde ele estava. O coitado estava “preso” na admissão da maternidade, etiquetando as malas!!! O atendente não queria liberá-lo e foi preciso que ele explicasse que perderia o nascimento do bebê para que, finalmente, pudesse subir.

 

Quando ele chegou, sentou atrás de mim e ficou me dando apoio. Ainda assim, a posição estava desconfortável. As contrações eram bastante doloridas. Senti quando a bolsa rompeu e o líquido quentinho escorreu. Pouco depois, a pediatra chegou e eu finalmente pude ir para a banheira. Digo “finalmente”, mas preciso registrar que todos chegaram muito rápido na maternidade! Perguntaram se o Fábio desejava entrar na banheira comigo e ele disse que sim. Não havíamos combinado nada, mas ele sentiu esse desejo no momento. Fiquei feliz. Entretanto, como as nossas malas ficaram aprisionadas na recepção da maternidade, ele não tinha a sunga em mãos. Por isso, teve que entrar de cueca na banheira. E pra piorar: cueca branca! Hehehe…

 

 

 

Tentei encontrar uma posição ideal na banheira, mas as contrações estavam bem intensas e os puxos cada vez mais fortes. Custei um pouco a “relaxar”. Senti vontade de gritar. Isso ajudava a me concentrar e a “fazer força”. No dia seguinte, o Fábio disse que naquele momento ele havia conhecido meu lado “Juma Marruá”. Eu estava com muito medo e pedia para as meninas me ajudarem. No intervalo entre as contrações, ficávamos em silêncio, concentrados – respirando e descansando. Meu marido ficou atrás de mim e ajudava a me apoiar. A médica e a parteira me diziam que a Isadora estava quase nascendo, mas, confesso, eu achava que elas estavam apenas tentando me animar. Perguntei para a médica do que dependia o nascimento e ela disse: só depende de você. Nesse momento, eu pensei: é assim? Então, vamos resolver isso agora!

Passei a me concentrar muito durante as contrações e a fazer toda força que eu podia. Senti o círculo de fogo (sensação de ardor que acompanha a distensão máxima do períneo). Na hora, me pareceu que o tempo parou, mas hoje sei que tudo aconteceu muito rápido. Talvez umas cinco ou seis contrações. Não sei ao certo.

Fui incentivada a tocar a cabecinha da pequena, que já havia coroado. Senti os cabelinhos dela e não acreditei. Mesmo assim, disse: “meu Deus, mas ainda falta muito!!”. Todas riram…

 

O ambiente estava perfeito, cercado de amor, calma, silêncio e, acima de tudo, muito respeito! Que honra estar na sala de parto com aquelas mulheres maravilhosas, dedicadas e competentes! Além do meu companheiro perfeito, que me abraçava, beijava e procurava me tranquilizar a todo momento.

Na contração seguinte, a cabecinha da Isadora saiu. Que emoção! A médica verificou que não havia circular de cordão e disse que podíamos esperar até a próxima contração para que o corpinho saísse completamente. Senti a Dorinha mexendo, já com a cabecinha para fora do meu corpo. Que sensação indescritível! A próxima contração me trouxe a pequena, que veio direto para o colo, num chorinho delicioso e emocionante. Ficamos extasiados olhando para ela. O restante do mundo desapareceu e ficamos nós três ali, nos namorando, nos sentindo, nos tocando.

Isadora nasceu às 3h30 do dia 5 de setembro de 2010, um domingo, pesando 3275 g e medindo 50 cm. Apenas 50 minutos após nossa chegada na maternidade.

 

O primeiro banho da Isadora

 

Cobrimos a Dorinha com alguns panos e, quando o cordão umbilical parou de pulsar, o Fábio o cortou. A temperatura da água havia esfriado um pouco e achamos melhor manter a Dorinha mais aquecida. A pediatra pegou a pequena para examinar, com toda a delicadeza e profissionalismo do mundo. Com carinho e atenção, deu Apgar 10/ 10 (nota que avalia a vitalidade e a condição do recém-nascido no primeiro e no quinto minuto de vida), pesou e mediu a minha princesa.

Levantei e fui caminhando para a cama, onde a médica e a parteira já esperavam para me examinar. Ainda tinha que parir a placenta! Tive uma laceração pequena, de segundo grau, que precisou de dois pontinhos. Essa foi a parte mais chatinha, mas não deu para evitar. Os pontos incomodaram nos dias seguintes, mas não me impediram de caminhar, tomar banho, sentar ou mesmo ir ao banheiro.

 

Como foi tudo muito novo e inusitado, é normal ficarmos receosos e às vezes assustados, mas com o passar dos dias essas pequenas coisas tomam uma dimensão insignificante diante da experiência avassaladora que é parir naturalmente. Eu não trocaria meu parto por nada nesse mundo. E faria de novo, mil vezes – embora tenha brincado com o meu marido dizendo, ainda na sala de parto, que o próximo filho seria adotado, com certeza! Demos muita risada.

 

Enquanto eu tomava meus pontinhos e uma aplicação de ocitocina para ajudar na liberação da placenta e na retração do útero, a Isadora veio mamar. Pegou perfeitamente e ficou ali no meu peito pela primeira vez. Eu olhava cada cantinho do seu rosto e não acreditava que aquele bebezinho lindo estava, até então, morando dentro de mim! Em seguida, a pediatra e o Fábio deram um lindo banho de balde na Isadora, que parou de chorar e ficou curtindo o momento!

 

Aos poucos, uma a uma das queridas que amorosamente nos assistiram, foram embora. Ficamos nós três, pela primeira vez fora do “ovo de Páscoa”. Enfim juntos! Esperamos amanhecer para avisar a família. Curtimos cada detalhe daquela noite/jornada incrível. E relembramos e revivemos essa história sempre. Às vezes ainda parece um sonho!

 

 

 

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October 15, 2019

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Fotografias por:  Kátia Ribeiro,  Bia Takata, Lela Beltrão, Marcelo Min, Cristiane Pereira e Carla Raiter / Acervo Casa Moara