“A amizade que fica é o que levamos de mais valioso”

18/01/2013

Com relação às emoções que senti no pós-parto, a maior dificuldade foi lidar comigo mesma. Nas duas vezes, as bebês estavam ótimas, eu não tinha problemas em acordar de madrugada e me sentir cansada, amamentar. Agora, aquela coisa do “É proibido sofrer” foi muito impactante para a minha experiência. Eu tinha vergonha de me abrir para as pessoas, medo de ser repreendida, porque eu estava ótima com minha filha linda, saudável, nos braços, tinha dado tudo certo, estava todo mundo com saúde. E quando tentava falar para alguém que eu não estava bem, as pessoas respondiam que eu não deveria me sentir assim, que eu deveria agradecer por estar bem.

 

Quando tive minha primeira filha, eu não sabia que existia “grupo de pós-parto”, que tinha a possibilidade do parto ser traumático, ou então parto natural, etc., não sabia de nada dessas coisas, eu estava apenas vivendo. E as minhas histórias de parto foram determinantes para a mulher que eu sou hoje.

 

Eu tenho uma irmã, que tem quatro meninas, eu a tinha como uma referência. Hoje eu não falo que tenho, porque acho que sigo o meu próprio caminho, apesar dela também ser uma super ‘mãezona’, hoje eu sei que buscamos coisas diferentes. E sei que não preciso ser igual para ser boa mãe. Eu sou boa mãe, ela também é. Cada uma no seu caminho. Mas naquela época, sempre quando surgiam as dúvidas, eu ligava para ela. Assim, percebi que tinha algumas inseguranças com relação àquela experiência inédita de tornar-me mãe.

 

Um exemplo que posso dar: Às vezes eu sentia a iminência de uma crise de pânico, e isso nunca acontecia enquanto estava amamentando. Então percebi que amamentação e a presença da minha bebê próxima de mim, me traziam grande paz e sensação de segurança. Foi então que comecei a colocá-la para dormir conosco na cama. A primeira vez que eu tive coragem de ‘confessar’ isso para alguém, fui logo repreendida “Ai Luciana, que quê eu faço com você?”. Na época eu ainda continuei firme e a mantive na nossa cama. Depois de muito tempo, buscando informações, descobri não só que essa prática tinha um nome, cama compartilhada, como também era objeto de pesquisas na área da saúde e psicologia e que muitos resultados mostravam seus benefícios para a mãe e o bebê. E nesse ponto, vale lembrar, a Internet ajuda muito mesmo, na descoberta de informações.

 

Na segunda gravidez, eu já participava de listas de e-mails para mães e grávidas, também participava do grupo de gestantes. Nestes espaços, as mulheres sempre comentavam sobre o “grupo de pós-parto”. Foram dois partos completamente diferentes em termos de sensação de segurança.

 

 

 

Então, quando minha segunda filha nasceu, a busca pelo “grupo de pós-parto” foi um caminho natural, uma forma que encontrei para continuar buscando essa troca entre mulheres vivendo a mesma situação. Eu não imaginava que seria tão benéfico para minha experiência de maternidade, benefícios que repercutiram positivamente para toda a família.

 

Apesar de não ter tido muitas questões específicas, as inquietações da maternidade sempre surgem para as mulheres. Sinto que o pós-parto pode ser um momento bem solitário, os amigos se distanciam, a gente pensa que não pode sair de casa com o bebê. Acho que isso acaba com o dia-a-dia das mulheres com bebês pequenos, o isolamento.

 

Fui em busca do grupo para conhecer o que outras mães faziam de diferente. E também para ser ouvida. Essa troca de sensações e experiências faz com que a gente se sinta parte de um grupo, dá um sentido de identidade e pertencimento. E conhecendo muitas mães, suas dificuldades e facilidades, eu me senti muito mais livre para ser mãe, sem ter regras pré-estabelecidas, ou tempo marcado no relógio para amamentar, por exemplo.

 

Acredito que quando a gente busca e atende a todas as regras e recomendações que existem disponíveis por aí, fica mais difícil reconhecer aquilo que é essencialmente seu – seus desejos, planos e expectativas. Já no grupo, as trocas de experiências acontecem mais ou menos assim: “Isso aconteceu comigo e eu resolvi dessa forma.” Mas temos consciência de que é a experiência dessa mãe com esse bebê, “Pode ser que não funcione igual para vocês”. Quando a gente escuta a história de outra mulher, a gente se sente autorizada para ir atrás do nosso desejo.

 

O grupo ainda traz o benefício das novas amizades que surgem, com mães tão diferentes, passando por situações tão semelhantes. A amizade que fica é o que levamos de mais valioso.

 

Hoje eu co-coordeno os encontros mensais da Roda Materna na Casa Moara. Neste espaço, percebo que a maioria absoluta das mães precisa de muito apoio para conseguir ter sucesso e prazer com a amamentação. Não tem maternidade perfeita. Tem boa mãe, tem. Mas todas têm mil questões nessa fase da vida.

 

Luciana, mãe da Lorena (4 anos) e Manoela (1 ano)

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