"E agora, eu não me preparei para isso, o que eu faço?"

18/01/2013

Busquei o Grupo de Pós-Parto porque meu parto foi bastante difícil, bem delicado. Eu percebi que precisava conversar, elaborar tudo aquilo melhor. Nós tivemos um expulsivo muito difícil, o bebê aspirou mecônio, não respondeu bem nos primeiros minutos de vida, e eu cheguei a ter uma hemorragia após a saída da placenta.

 

Quando ele nasceu, eu estava preparada para ter o dia mais sublime da minha vida, no entanto, eu estava destruída. Meu filho estava na UTI e eu havia precisado tomar três transfusões de sangue no quarto. Então foi assim que meu puerpério começou: no chão. Foi muito difícil, eu comecei lá embaixo.

 

João ficou 18 dias na UTI Neonatal. Carla reconheceu as dificuldades emocionais que “o sonho desfeito” havia provocado, e encontrou apoio na troca de experiências entre mulheres vivendo a mesma etapa da vida.

 

 

A gente não se prepara para coisas fora do script. Acredito que é assim mesmo que deve ser, temos que manter expectativas positivas. Mas quando algo de errado acontece você se sente meio sozinha no deserto. “E agora, eu não me preparei para isso, que eu faço?”

 

Passamos por toda a fase da UTI, foram 18 dias até a alta. E então começamos a batalha da amamentação. Eu tenho redução de mamas e não sabia que isso poderia alterar ou dificultar a amamentação. Fui ao pediatra, depois à fonoaudióloga. Com eles, começamos a fazer a translactação, uma técnica muito importante, que viabilizou a aleitamento materno, mas que demandava bastante trabalho com a locação dos aparatos, esterilização dos materiais, etc. Além disso, meu bebê teve refluxo. Ou seja, costumo dizer que tive o pacote completo das dificuldades: com o parto e a amamentação.

 

Nessa época, sentir culpa foi inevitável, ela era minha maior companheira. Porque não marquei uma cesárea? É claro que eu não desejo isso, mas na hora, não tem jeito, você pensa esse tipo de coisa. Pensava que poderiam ter aberto a minha barriga em cruz e tirado ele lá de dentro”. Lidar sozinha com toda essa carga emocional é muito pesado.

Na Casa Moara, eu tinha feito boas amizades, com minha professora de ioga, minha doula e as mulheres que participavam dos grupos. Por isso, logo que passou a quarentena do João, fomos ao último encontro de pós-parto de 2011. Até então, eu achava que estava bem, que poderia sobreviver aos desfechos inesperados. Mas durante a rodada de apresentações, quando comecei a falar sobre o porquê eu estava ali, desabei a chorar. Com isso, percebi que precisava conversar sobre o fato de que eu estava vindo de um sonho desfeito. Precisava falar com pessoas que iam me ouvir e entender o que eu estava falando.

 

E o grupo foi fundamental. Nele, consegui elaborar todos os sentimentos que até então me eram desconhecidos. Eu acho que, independente do parto, o grupo tem o potencial para beneficiar a todas as mulheres. Porque você não é preparada para o que vem depois; e é uma mudança radical, diferente da gravidez, que traz transformações gradativas – você consegue se apropriar do processo, se habituar com algum desconforto, cansaço, etc. Quando o bebê nasce, de uma hora para outra você não tem mais a mesma vida. E ao mesmo tempo, você está tomada de hormônios, você ama imensamente aquela situação, aquele amor enorme pelo bebê.

 

Não temos como nos preparar emocionalmente para tanto. Para o homem também existem mudanças, mas não tão radicais quanto para a mulher. E daí, depois de um tempo, tem toda a história da volta ao trabalho. Vai conseguir voltar, quem cuidará do bebê, e da casa, será que vou conseguir? E de repente mil questões práticas entram na ordem do dia, e você não estava acostumada a pensar nisso tudo.

 

Em nossas práticas de maternagem, buscamos seguir muitos dos exemplos que acumulamos de nossas próprias mães e de outras mulheres, também. Agora, é muito diferente quando a gente conversa com uma mulher que está passando exatamente pela mesma etapa de vida que você! A mesma fase do bebê que acorda mil vezes à noite, que está com os dentes nascendo… são mães que não falam em retrospectiva, falam da atualidade que estão vivendo. Acredito que quando a gente passa por aquilo e fala em retrospectiva, a gente perde a nuance do sentimento exato que é viver tal experiência. E nem sempre as pessoas do convívio estão preparadas para dialogar sobre isso. “Você está se queixando? Esse é um momento tão incrível” Sim, ele é incrível, mas ainda assim, tem suas dificuldades.

 

A maternidade é um processo de aprendizagem; as coisas não são perfeitas. E o grupo permitiu que eu entendesse que não ser perfeita, também era legal. “Você vai ser uma mãe bacana, mas não perfeita”. O que trago comigo é a noção de que tenho que ser uma mãe suficientemente boa para meu filho, mas não preciso tentar ser perfeita.

 

No grupo, vemos os bebês crescendo, acompanhamos a experiência do desenvolvimento. E também descobrimos juntas muitas coisas sobre a maternidade. Isso tudo nos aproximou, nos tornamos amigas, ganhei seis novas grandes amigas. Temos um grupo no Facebook, onde continuamos falando de maternidade e trocando nossas ideias.

E há mulheres muito diferentes entre si também, o que nos dava conforto e liberdade para experimentarmos outras possibilidades de cuidados.

 

Em resumo, o Grupo de Pós-Parto me fez andar esse ano com leveza. Trocar essas experiências nos ensina muito. Então avalio que alcancei uma sensação de liberdade. Liberdade para descobrir a mãe que eu sou. Estou me despedindo de 2012 sem o amargo com o qual eu entrei no começo do ano. Estou fechando o ano acreditando que foi realmente incrível!

 

Carla, mãe do João, 1 ano e 2 meses.

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