"O grupo me despertou a vontade de ser mais intuitiva"

18/01/2013

Bom, começo me apresentado como um elemento da diversidade. Eu não sou da turma do parto natural, não cheguei a frequentar os grupos de gestantes da Casa Moara e comecei a participar do Grupo Terapêutico Pós-parto por meio do convite de uma amiga. Eu tive parto normal, mas com algumas intervenções, como analgesia, ocitocina e episiotomia. Foi a experiência mais linda da minha vida, foi tudo muito bem, dentro desta perspectiva.

 

Após o parto, uma amiga convidou Liana para conhecer a Casa Moara. Ela participou do Grupo de Pós-parto até o primeiro aniversário de sua filha.

 

Entrei no grupo quando minha filha estava com 4 meses. Eu tenho essa característica de gostar de controlar e coordenar as situações, e percebi que, com a maternidade, eu havia perdido o controle. Eu não podia controlar quando minha filha estava com fome, ou estava chorando e eu não sabia o motivo, ela ainda teve refluxo e por isso, regurgitava todo tempo. Então, no pós-parto, eu me vi um pouco à mercê daquela experiência que era muito forte, riquíssima e profunda. E essa foi uma das coisas mais importantes do meu puerpério: perceber que eu não tinha o controle sobre tudo, e que isso era ok.

 

Também busquei o grupo para socializar, e tentar viver a experiência da maternidade de forma menos solitária. A nossa família toda é do sul, ninguém mora aqui em São Paulo, nós estamos aqui há apenas dois anos. Eu sentia vontade de sentar em roda com outras mães, de ouvir o que elas estavam vivendo. Sou uma pessoa aberta, não tenho uma postura fechada, gosto muito de ouvir as outras experiências.

 

Entendo que vivemos sob muita influência externa, de nossas mães, tias, sogras, influências que são boas e que devem ser levadas em consideração. As pessoas querem ajudar, porque veem que você está numa situação difícil, mas às vezes trazem soluções prontas. E muitas delas não funcionam, porque somos todas diferentes, com bebês diferentes. Apesar de vivermos experiências semelhantes, cada mãe percebe uma situação de forma muito particular, em função das histórias de vida, vivências, procedência e valores pessoais e familiares. 

 

Acho que essa é a grande diferença entre as opiniões de senso comum e aquelas que o grupo colocava: a análise que a gente fazia, em conjunto, das vantagens e desvantagens das situações. Então a vizinha, a televisão e a revista te dão informações prontas, mas no grupo a gente tinha a oportunidade de confrontar as ideias, de construir um raciocínio. Também foi muito importante para mim, aprender a identificar o que são as opiniões alheias e aquelas que são as minhas próprias opiniões. A maternidade também deve ser marcada por essa busca dos meios para fortalecer sua essência, única e individual.

 

Além de me ensinar que não é possível ter controle absoluto, o grupo também me alertou para uma coisa que eu acho que estava levando para o caminho errado. E que foi muito determinante para a minha experiência como mãe. Eu tinha lido um livro para ajudar o bebê a dormir e a mamar, e estava muito técnica. O grupo me despertou a vontade de ser mais intuitiva: olhar no olho, sentir o toque, curtir os diversos momentos com minha filha, e deixar o tempo passar com mais naturalidade. Antes, eu achava que a minha interação com a bebê tinha que ser um tanto educativa, mediada por livros e brincadeiras. Outras mães me ajudaram a perceber que a interação deveria ser estabelecida a partir de mim mesma, no momento de acordar, das trocas de fralda, ou mesmo nas atividades que eu gosto de fazer em casa, como ouvir música, por exemplo. Não precisa ser necessariamente por intermédio de produtos e ideias pré-estabelecidas.

 

Então, foi muito importante perceber a inexistência de uma ‘receita de maternidade’. Não haviam verdades universais, não havia receita de bolo algum. As moderadoras conversavam sobre a literatura existente, mas não estabeleciam verdades. Com isso, a gente podia se abrir para a escuta sobre como cada uma de nós responde a essa experiência que é muito forte. Ao compartilhar como estávamos vivendo as mesmas experiências, os mesmos momentos, eu pude conhecer a minha forma de maternar, e entendi que ser a “mãe ideal” significava que eu deveria ser eu mesma.

 

Vários momentos do grupo foram marcantes. Um deles foi quando eu consegui passar para as outras mães, por exemplo, que eu não tinha desejo de participar da Marcha do Parto em Casa. E, por mais contraditório que possa parecer, foi exatamente neste momento que senti que eu estava sendo, de fato, muito bem acolhida. Ou seja, quando eu me coloquei em uma posição da diferença e fui acolhida, foi aí que eu tive certeza do pertencimento, e consequentemente, do caráter libertário daquele grupo de mães.

 

Desse grupo, nasceram amizades. Além disso, a minha filha também tinha esse momento de encontro com outras crianças. Nós continuamos a nos encontrar, em aniversários, pic-nic, e outras ocasiões. Agora, somos um grupo de amigas.

 

O que eu diria para uma mãe com bebê novo? Para buscar sim as informações técnicas, oferecidas pelos cursos para gestantes, mas principalmente cultivar a naturalidade de cuidar desse novo ser. Cultivar o seu jeito, a sua forma de agir, a sua intuição. E ainda, diria que devemos perder um pouco essa coisa da autos-suficiência, a gente precisa das pessoas. As mães devem ser lembradas que elas precisam ser cuidadas para que possam cuidar dos filhos.

 

Liana, gestante e Mãe da Suzana 1 anos e 3 meses

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