Sempre é tempo de mudar: basta ter coragem para conhecer o novo

22/03/2013

Meu relato de parto começa muito antes de parir: quando nos descobrimos grávidos, cada um sentiu um frio na barriga diferente. No caso do Marcos, me pareceu carregado de felicidade e realização. O meu veio acompanhado por um vendaval estomacal repleto de medo. Medo das mudanças, da responsabilidade, de não ter trabalhado o suficiente, de me doar, de não sentir o amor incondicional, de não saber cuidar, de não saber ser mãe, e claro!, o medo de passar por uma cirurgia. Não, meu medo nunca foi parir.

 

 

 

Começamos nosso pré-natal com a médica que cuida(va) de todas as mulheres da família, que me conhece desde os 11 anos de idade, aquela a quem eu confiava a minha vida. E seguimos com ela. Alguns medos eu deixei de sentir, outros permaneceram comigo. Confesso que essa médica não me animava muito. As consultas não eram lá muito calorosas, mas afinal o que eu queria… uma obstetra super requisitada ou uma amiga?

 

A essa altura, o Marcos já torcia o nariz a cada consulta e eu ainda me convencia: vamos lá minha gente, ela faz o que tem que ser feito, isso é o importante! Está cuidando de tudo! Por recomendação dela, vamos parar de fazer todo e qualquer exercício físico e vamos fazer as 12 ultrassonografias que ela sabe serem necessárias, para que o parto tenha chance de ser normal… Oi? Sim, essa foi a primeira vez que eu me questionei, mas ainda estava longe de mudar o rumo da nossa história.

 

Por volta das 24 semanas chegou a hora de fazermos nossa merecida viagem pra Europa, programada um ano antes e depois de dois anos sem férias. Mesmo informando a médica desde o começo do pré-natal, um dia antes de embarcarmos levamos bronca por nossa irresponsabilidade. “Viajar pra Europa? Ainda mais com essa crise, com o caos que está por lá?” Sim, fomos para a rota da crise: Grécia e Barcelona. “Olha minha filha, sua gestação não apresentou nenhum risco até agora, mas vocês quem sabem. Eu nunca perdi bebês aqui no Brasil, perdi apenas para viagens ao exterior, por doenças que não temos aqui, mas a decisão é de vocês”. Isso me fez questionar: o problema não era a crise e o caos? Despejar toda essa culpa em nossas costas um dia antes? Com que propósito?

 

Discutimos muito sobre o assunto e decidimos seguir nossa intuição. Viajamos com o coração tranquilo, sem carregar nas malas nem culpa nem medo. Como era de se esperar, tudo correu sem problemas. Ah, foi uma viagem que só fez bem a nós três. Descansamos, comemos bem, sorrimos muito e pudemos refletir sobre o desejo de trazer nosso Gael ao mundo de forma mais natural.

 

Em uma conversa com uma amiga nossa, mãe dedicada e militante, ela disse uma frase que tocou meu coração, pois eu vi em seus olhos muito sentimento: “Quem me dera alguém tivesse me alertado em minha primeira gestação. Não teria sido submetida a uma cirurgia desnecessária”. Isso abriu meus olhos e minha cabeça para buscar o significado da humanização do parto.

 

O tempo foi passando, eu me sentia cada dia mais feliz e saudável. Passei a me questionar sobre como realmente seria nosso parto e resolvi entender da tal médica, sempre evasiva, afinal de contas, como é que seria o parto na visão dela. Resumindo, como ela mesma disse: “Se for normal será com todas as intervenções que tiver direito, 40 semanas é o limite e o tipo de parto só dá mesmo pra saber na hora H” Oi??? Fui!!!

 

Com 32 semanas e alguns amigos nos guiando, conhecemos a nossa obstetriz e aquele que viria a ser nosso médico parteiro. A sensação ao sair das consultas eu nunca vou esquecer… é difícil achar palavras pra descrever, mas foi como respirar novos ares. Pela primeira vez eu senti muito prazer em estar grávida.

 

Tudo fez sentido, pois minha vontade seria respeitada, afinal de contas, alguém estava me ouvindo. Não precisou muita conversa pra que eu entendesse o sentido da humanização, não só do parto, mas de todo o processo até chegarmos a ele. A obstetriz é uma fonte de energia e serenidade. O médico parteiro, um ser humano apaixonante. Ambos amam o que fazem e fazem com respeito.

 

Adiante com o pré-natal, agora respirando novos ares. Uma pergunta sobre o parto que o médico parteiro fez nas consultas foi: “Você tem medo de quê?” Eu ainda estava com alguns medos, verdade. Por vezes tentei responder essa pergunta a ele, e até inventei um medo: “Medo da pressão subir e eu passar mal no meio do parto”, rs. Acho que ele não acreditou, mesmo assim com um punhado de palavras rebateu o “pseudo medo”.

 

Não tenho medo da dor, nem da passagem do bebê, nem mais a placenta me põe medo. Entendi que do parto é que eu não tinha medo. Eu e o Marcos seguimos juntos o tempo todo, eu e eles, meus dois amores. Nossas consultas, as aulas de yoga da obstetriz para casais grávidos, os encontros na Casa Moara, o EPI-NO. Todo o processo foi fundamental para nos prepararmos para o desconhecido.

 

Com 38 semanas perdemos o tampão. Enviei um SMS para o médico parteiro e recebi como resposta: “Que lindo, mais um passo para seu parto maravilhoso”. A obstetriz me disse: “Fique tranquila, pois ainda pode demorar um tempinho”.

Resolvemos organizar o que faltava, pendurar os quadrinhos, fazer as malas da maternidade e o plano de parto. Uma das coisas mais importantes do plano de parto foi pedir: “Sorriam!! Não preciso saber com palavras se está tudo bem, se estiver, sorriam pra mim”.

 

Saí de casa pela manhã pensando “nossa hoje a barriga tá pegando, só falta entrar em trabalho de parto no meio da rua”. Nesse dia resolvi antecipar um trabalho de compra dos móveis para a casa do meu primo, pois estava sentindo que deveria resolver todas as pendengas o quanto antes. Compramos tudo e fomos jantar. A essa altura sentia dificuldade de andar e um desconforto na parte de baixo da barriga. Fizemos o pedido para o garçom mais confuso da casa, que voltou cinco vezes pra confirmar o que queríamos. Foi a sorte, pois tivemos tempo de cancelar os pratos. Com 38 semanas e seis dias a hora havia chegado!

 

Lembro de ter olhado o relógio: 22h. Depois de sentir um calafrio e uma pressão, sem dor, eu senti um misto de curiosidade e felicidade. O tempo parou, olhei a minha volta e disse com um sorriso largo no rosto: “Garçom, cancela o pedido, pois minha bolsa rompeu”. Meu primo e a esposa dele ficaram em pânico, umas senhoras que estavam no restaurante me olhavam sorrindo e dizendo “Bom parto minha filha”.

 

Achei graça a bolsa ter rompido. A sensação do líquido escorrendo pelas pernas foi carregada de felicidade e realização. Não tive medo. Sorri em resposta às senhoras e acalmei meus primos. Pedi que me levassem para casa e não para o hospital como eles sugeriram.

 

A caminho de casa as contrações começaram… não achei graça nisso. Liguei para o Marcos e quando cheguei em casa tive uma sensação de alívio (não nas dores) emocional. Vi que ele preparou a casa pra mim: baixou as luzes e colocou as músicas que escolhemos para o parto. Sentir que ele estava lá, presente em todos os sentidos, foi a maior segurança que eu podia ter.

 

No chuveiro, as massagens na lombar fizeram sucesso. As contrações foram aumentando e ele achou que era hora de marcar o tempo de cada uma. Combinamos de ligar para a obstetriz quando marcássemos 14 contrações por hora. O Marcos se assustou com a primeira marcação, pois marcamos 21 na primeira hora!

 

A obstetriz resolveu nos encontrar em casa, pois era muita contração para a primeira hora de trabalho de parto. Chegou em casa meia noite e avaliou que, apesar de estar bem ritmada, a dilatação estava em dois centímetros apenas. Por orientação dela fomos para o quarto descansar e preservar energia.

 

Confesso que saber que ela estava do nosso lado, logo ali na sala, me deu mais segurança. Parei de racionalizar quando ouvi dela: “Que bom, mais uma contração significa uma a menos pra você conhecer o Gael”. Resolvi me entregar à dor, sem tentar aliviar ou evitar que aumentasse. Respira Camila, respira!

 

Achei uma posição confortável, sentada com as mãos na lateral do corpo apoiada na cama. Dormi entre uma contração e outra. O tempo passou e eu não vi.

Às quatro da manhã estava com cinco centímetros e resolvi pedir que me levassem para o hospital. Não queria passar pelo que uma amiga passou, na fase ativa presa no trânsito. Chegamos ao hospital.

 

Meu cunhado nos ajudou com a internação (combinamos com ele meses antes, pois ele queria ajudar de alguma forma) o que foi fundamental, já que assim, a obstetriz e o Marcos puderam ficar comigo o tempo todo. Nem por um instante eu fiquei sozinha.

Nessa fase minhas lembranças são vagas. Sei que não demorou para entrarmos na suíte de parto. As contrações estavam bem ritmadas e a dilatação caminhando bem, já estava com seis centímetros a essa altura. Sentei na bola pra me movimentar, pelo amor!!! Queria explodir a maldita bola! A única posição que conseguia ficar era sentada em uma poltrona com as mãos apoiadas na lateral.

 

Com as contrações aumentando de intensidade e ritmo, entrar na banheira parecia ser minha única salvação, e foi pra lá que eu fui!

 

Tudo corria de acordo com nosso plano de parto e, de acordo com minha vontade, o expulsivo caminhava para ser na água mesmo. Todo o tempo que fiquei na água, me senti entregue para a fase mais intensa do trabalho de parto. As contrações chegaram ao pico e foi a única vez que me lembro de querer saber que raios estava acontecendo. Perguntei à obstetriz “Que dor era aquela? Isso vai aumentar?” Para minha alegria, ela iria se manter, aumentar não, e na fase expulsiva, ao fazer força, vai passar… ah, o paraíso!

Sempre imaginei como seria a tal vontade de fazer força. Seria psicológica? Racional? Ou física? Física! Senti o corpo se contrair por vontade própria, como um espasmo, um movimento involuntário.

 

Eu que fui pra longe, esvaziei a mente durante toda fase ativa, voltei! Finquei os pés no chão! Lembrei das conversas do pré-natal, no foco que eu precisaria ter nessa fase. Mas, quando fiz força ao sentir a tal vontade física… dor… foi só o que eu senti… seguida de uma vontade enorme de perguntar sobre o fórceps e anestesia! Não verbalizei. Sabia que falar seria pra mim uma entrega que eu não queria. Respirei e disse para a obstetriz que a dor não havia passado ao fazer força. A médica parteira então chegou e avaliou que ainda faltava um rebordo do colo para dilatar, mesmo estando no expulsivo. Que uma simples manobra faria o colo abrir e a dor passaria… será?

 

O médico parteiro chegou, sentou, olhou, apoiou suas mãos sobre as minhas e sorriu. Nesse momento eu percebi para que esse homem veio ao mundo… para estar lá! Para sentar ao nosso lado, olhar com carinho e atenção, nos dar apoio e segurança com suas mãos gigantes e para sorrir com o coração!

 

Ele sugeriu que, depois de duas horas na banheira, nós pudéssemos estimular o processo caminhando um pouco. Àquela altura eu aceitaria toda e qualquer sugestão! Pedi a tal manobra que a médica parteira havia sugerido e, por isso, fui para uma maca.

 

Uma contração e uma manobra para abrir o colo do útero seguida por um alívio imenso. Esses foram os melhores momentos do meu trabalho de parto. Nesse instante, a dor passou e a entrega foi total. Eu só queria respirar fundo e fazer força!

Mais uma vez o médico parteiro sugeriu uma posição diferente, dessa vez a banqueta de parto, claro que eu fui logo aceitando. Essa foi simplesmente a melhor posição que podia existir no mundo para eu parir! Incrível!

 

Senti um controle sem igual sobre meu corpo, pude sentir onde o bebê estava, pude controlar a intensidade das forças que eu fazia, pude agarrar o pescoço do Marcos e puxar com toda força a cada contração (ele estava sentado atrás de mim apoiando minhas costas). Foi mágico!

 

A obstetriz logo anunciou que o Gael estava com dois dedos da cabecinha pra fora e que estava chegando. Fui tomada por uma alegria imensa, resolvi que ele iria nascer naquele momento. Fiz força, senti o círculo de fogo (bem melhor que o  EPI-NO), mais uma força e ele veio me olhar… nasceu de olhos abertos e gritou bem alto.

 

Senti uma alegria tão intensa, fiquei paralisada sorrindo e olhando pra ele. A placenta que ainda me dava um medinho… que placenta?? Ela nasceu e eu nem vi.

 

Com ele no colo, voltei para a maca e por ali ficamos por muito tempo. Eu olhando pra ele, ele dormindo e o Marcos chorando. Foi um momento em que o tempo parou.

Hoje o Gael está com um mês, lindo e saudável. Olho para trás e respiro aliviada todos os dias quando penso que sempre é tempo de mudar. Que basta ter coragem para conhecer o novo e mudar o ponto de vista. Que ter desconfiado de tantas certezas me fez renascer como mulher.

 

 

 

Ter parido da forma que eu queria fez de mim uma mulher realizada!

 

 

Please reload

Siga a Moara

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon

Disciplina positiva; o que é e como colocar em prática?

November 12, 2019

1/10
Please reload

Em Destaque

Leia por Tema

Posts Recentes

Please reload

Fotografias por:  Kátia Ribeiro,  Bia Takata, Lela Beltrão, Marcelo Min, Cristiane Pereira e Carla Raiter / Acervo Casa Moara