Parir naturalmente e deixar nascer o filho, a mãe, o pai

11/05/2013

Patrícia se entregou ao seu instinto primal e pariu numa madrugada chuvosa ao som do Concerto Italiano de Bach.

 

 

 

Nove da manhã, 31 de outubro de 2012. Aniversário do meu pai, que torceu desde que soube da minha gravidez para que o neto nascesse em seu dia. A DPP (data provável do parto) era 29/10, e para todos eu falava em “início de novembro”. Sabia intimamente que Luís Norio nasceria em novembro.

 

Às nove da manhã, levantei para ir ao banheiro. Seguindo os conselhos das mães experientes, aproveitei o máximo que pude para dormir ou pelo menos descansar até mais tarde, mesmo com as frequentes idas ao banheiro durante as madrugadas. Esses despertares por conta da bexiga cheia, dizia sempre, era um ensaio para as noites insones da maternagem, mas a simulação é apenas uma mímese distante da realidade….

Fase latente.

 

Digressões à parte, fui ao banheiro e vi um muco de consistência semelhante ao da ovulação, só que avermelhado. Era o tampão que caía. Não dei muita atenção por saber que podiam passar dias até o trabalho de parto engrenar. Porém não queria que fossem muitos dias, pois temia a quadragésima-primeira semana de gravidez e a possibilidade de indução do parto. Avisei o marido, que evidentemente ficou feliz, e perguntou:

– Será puxa-saco do avô, pra nascer no dia dele?

– Sei não, vamos ver.

Mandei um torpedo para a doula e professora de Yoga e para a minha obstetra já perguntando se podia ir pra piscina com tampão caído. A médica disse que sim (eba!). Chico, o marido, perguntou se ficava em casa ou ia trabalhar.

– Vai trabalhar, claro! E faz hora extra, porque depois vamos precisar das suas folgas. Qualquer coisa eu te aviso.

 

 

Desde às quatro da manhã, as contrações estavam tranquilas e espaçadas, em intervalos variando entre vinte e dez minutos, tal quais as Braxton-Hicks (contrações de ensaio) das últimas duas semanas. Durante a Mostra Internacional de Cinema, encarei duas sessões com as Braxton-Hicks a cada dez minutos, durante uma hora, depois fim. Nada que respirações profundas e, quando necessário, algumas rotações de quadril não resolvessem. Continuei tranquila naquela manhã e segui a mesma estratégia, pensando que pudessem ser Braxton-Hicks ou, se não fossem, seriam pródromos muito incipientes ainda. E aquela dorzinha, semelhante à cólica menstrual, só que vindo em ondas, de cima pra baixo, de frente pra trás, era perfeitamente manejável.

 

Um sinal típico de fase latente, o intestino solto, apareceu no meio da manhã. Não dei muita atenção. Podia ser o mix de fibras (gérmen de trigo, farelo de trigo e de aveia, farinha de linhaça) que comia no café da manhã diariamente, com iogurte e fruta, pra evitar constipação.

 

Na palestra sobre as fases do parto da Casa Moara (onde fiz o pré-natal e frequentei grupos de gestantes), a orientação para a fase latente era manter vida normal. Não fiquei ansiosa, não me ative a pensar se estava ou não em trabalho de parto. Podiam ser contrações de Braxton-Hicks ou não.

 

Seguindo a dica de um relato de parto que ouvi na Casa Moara, agendei manicure e pedicure para às 11h. Chico escolheu a cor do esmalte para receber Luís Norio, um vibrante vermelho alaranjado (Garota Verão, Colorama). Não falei nada sobre as contrações para não assustar as manicures, só que elas sabiam que estava de 40 semanas e o parto podia ser a qualquer momento. Então, a pergunta foi:

– Mas pode passar esmalte vermelho no pé e na mão? Não vão tirar na maternidade?

– Não, isso é pra quem vai pra centro cirúrgico e eu estou me preparando para o parto natural, podem mandar ver no esmalte.

 

Nessa hora a doula mandou torpedos perguntando como eu estava. Falei que tinha ido ao salão e que as contrações se mantinham suaves a cada 15 minutos. “Fazendo a unha para estar bonita para a chegada do Norio?”, ela escreveu, fazendo graça.

 

Fazia um calor intenso, uns 35 graus. Almocei em casa. Sseguindo aquele instinto de parideira, fiz feijão para uma semana, congelei em potinhos, e preparei uma torta de legumes. Tirei uma breve sesta e as contrações ainda naquela suavidade, a cada 10 minutos. Pensei em ir pra aula de Yoga, mas a doula me demoveu da ideia por causa do extremo calor. Então, pratiquei um pouco em casa, focando assoalho pélvico. Fiz também a postura do lenhador, acocorando para chamar Luís Norio ao mundo.

 

Quando o sol amenizou, às 16h30, desci para a piscininha do prédio. A doula ligou no intervalo de suas aulas. Falei que as contrações continuavam na mesma, então, estava me refrescando. Duas vizinhas do prédio também curtiam o fim da tarde com água fresca. Perguntaram de quantos meses eu estava, disse: nove.

– Não parece, puxa, você engordou pouco.

– Cinco quilos.

– E é pra quando o bebê?

– Pra qualquer momento. Estou me preparando para o parto natural, aliás gostaria muito de ter parto na água, então, é bom vir para a piscina porque serve de treino.

 

Sei lá por que, minutos depois fiquei com a piscininha só pra mim. Será que elas tiveram medo de eu parir ali mesmo? Fato é que os movimentos na água e o relaxamento ajudaram. Em pouco mais de uma hora, o intervalo de contrações baixou de 10 para 7 minutos. Tomei um banho às 18h, ainda naquela ilusão de que o banho morno amenizaria as contrações. Até ajudou a relaxar, mas não a diminuir o intervalo. Sentei na bola, emprestada pela doula, e girava o quadril para aliviar as contrações. Assim que acabou a aula, ela me ligou para saber como eu estava. Disse que a piscina foi ótima para reduzir o intervalo, mas ainda estava tudo sob controle.

– E o Chico?

– Ah, ele está vindo, deve chegar pelas 20h.

 

Por volta de 19h, a doula chegou em casa (moramos muito perto, algumas centenas de metros de distância). Foi maravilhoso, porque parei de contar intervalo de contrações. Em nenhum momento, contei sua duração. Esse trabalho ficou com nossa querida fada-doula e pude relaxar, focar apenas nas respirações profundas, nas vocalizações e gemidos, que se tornariam cada vez mais intensos, agudos e escandalosos.

 

Parecia que ainda iam se passar muitas horas e estava pronta para isso. Sabia que primigestas podem levar 24 horas ou mais em trabalho de parto. Do jeito que estava, tudo beleza! Chico chegou, abriu um vinho para comemorar a queda do tampão. Ele perguntou quanto tempo podia levar.

 

- Ah, isso vai até amanhã!

Degustou calmamente uma taça com a doula e eu um suco de uva. Comemos a torta de legumes, enquanto Chico tomava banho. Quando ele voltou pra mesa, falei:

- Nossa, estou aqui, mas não estou.

Era uma sensação de que meu corpo estava ali na sala, eu percebia os móveis, o piano, os objetos e as pessoas ao redor (doula e Chico), mas minha mente, minha alma estavam em outro lugar, observando meu corpo ali.

Nesse momento, Chico estava comendo o primeiro pedaço de torta e a doula falou:

– Vamos juntar as coisas para ir pra maternidade.

– Não era para amanhã? perguntou Chico.

– Não, é melhor irmos sem pressa, mas logo.

– Dá para comer a torta, é bom você se alimentar — falei.

 

Pegamos a malinha do Luís Norio (cujas roupas não foram tocadas na maternidade, pois ele ficou só nos cueiros. Só usou roupa pra ir pra casa), as nossas coisas, sacos plásticos e uma toalha velha reservadas para o caso de a bolsa estourar no carro (não rompeu). Descemos pro carro da doula, que estava na garagem do nosso prédio. Quando interfonei na portaria, pouco antes das 19h, para autorizar a entrada da doula, dizendo:

– É nossa amiga, veio ficar comigo e vai nos levar pra maternidade.

O porteiro ficou assustado:

– Como assim? Você está sozinha?

– Tudo bem, ela está vindo e o Chico chega logo.

 

Sabia que essa etapa, do trajeto à maternidade, poderia empacar o trabalho de parto. Então, preferi não focar muito no exterior e ficar introspectiva ao máximo possível. Seguindo a sugestão da doula, ajoelhei no banco, olhando para o vidro traseiro do carro, mas só por cerca de 1 km. Depois preferi sentar meio de lado. Chovia. Uma chuva fresca e fértil, que extraía o cheiro da terra úmida. Como em uma certa segunda-feira de prática de Yoga, que nos brindou na hora do Yoganidra (relaxamento) com uma chuva boa e prazenteira… Estava ali e não estava, alternava momentos de consciência total com outros em que parecia flutuar sobre mim mesma. Tenho a impressão de que a doula ficou um pouco nervosa com o trânsito (não percebi congestionamento, já passava das 21h, acho que foi alguém nas proximidades da maternidade, atrapalhando o fluxo). No fim, não senti tanto o percurso geográfico. Meu percurso era outro, o da chamada “partolândia”.

 

 

Chegamos à maternidade por volta das 22h. A enfermeira obstetriz nos aguardava e, quando viu minha expressão serena, olhou para a doula e nada disse, mas fez uma expressão de quem diz: está louca? Para que trazer a mulher na fase latente para a maternidade? Fui para o exame protocolar de cardiotocografia (chato, mas não o fim do mundo). Estava já com 8 para 9 cm de dilatação; a obstetriz não acreditou. Refez o toque para confirmar e disse:

- Pela sua carinha de ‘alguma coisa está incomodando’, achei que você estava com uns 3 cm.

 

A prática de Yoga me ajudou muito a atravessar a fase ativa (dilatação de 5 a 8 cm) como se fossem pródromos, a etapa inicial do trabalho de parto. As respirações profundas aliviavam as dores, que realmente não me pareciam tão lancinantes assim. Enfim, era o final da fase ativa, já entrando na transição para o período final, o expulsivo.

 

Chegamos à suíte de parto. A delivery que tinha uma banheira grande não estava disponível. Tentei me ajeitar na banheira retangular, que foi útil para aliviar as contrações, mas ali não achei posição para parir. Chico entrou na água comigo e, apesar de ele ser um moço compacto, o espaço ficou mais apertado ainda. Em uma das contrações, me mexi de um jeito desengonçado e quase quebrei a tíbia do marido! Enfim, aproveitamos o que a banheira pode proporcionar. Foi lá que a doula fez uma acupressão nos ombros maravilhosa, a obstetra tirou o rebordo do colo. A doula me avisou:

 

- Prepare-se porque vai doer, mas vai ser bom, porque depois alivia.

Entrei no expulsivo.

 

 

Nessa fase fizemos quase todo o Kama Sutra do parto: de quatro, apoiada na bola sob chuveiro (Chico fez direitinho a massagem no sacro); de cócoras sustentada, segurando um lençol amarrado na maçaneta da porta do banheiro (nessa posição Luís Norio alcançou o nível zero da bacia). Senti fome, queria algo salgado. Muito carinhoso, Chico tentou colocar uma bolacha em minha boca. Justo na hora de uma contração. Cuspi tudo na cara dele: isso é hora de dar a bolacha, no meio da contração? Como se ele tivesse maneira de saber…

 

Seguimos para a cama sobre a banqueta de parto, tentamos de lado, em posição ginecológica. Tinha que fazer a tal força comprida, que não sabia onde era e de onde vinha. Minhas contrações eram muito curtas (mesmo no expulsivo). Por um lado, sua brevidade fez com que não parecessem tão horríveis, por outro, aqueles efêmeros segundos demandavam foco e ativação total de corpo-mente-emoções.

 

A obstetra me alertou de que eu não estava fazendo a força correta. Minha doula dera uma dica, ainda na banheira: fazer o jalandhara bhanda (chave de queixo: inspirar e, retendo o ar, levar o queixo ao peito). Mas chegou uma hora em que estava fazendo todos os bhandas, ativando períneo, abdome, garganta, peito, tudo. Urrava, buscando o lugar dessa força estranha, botando para fora gritos primais. Quem vê o vídeo do parto pensa que eram dores excruciantes, mas garanto que não, foi o jeito que achei de me libertar para abrir passagem ao bebê. Os urros expressavam a minha entrega, aquilo que chamo “decorticar”, deixar longe a racionalidade cartesiana, masculina (muito útil em outros momentos), e permitir que aflorem nossas capacidades de fêmea, de agir pelo fluxo das emoções, mais ligadas ao sistema límbico do cérebro. (Uau! Que papo mais neurociência!)

 

 

 

Depois de cerca de duas horas de expulsivo, minha obstetra chegou a falar em usar ocitocina sintética para não prolongar demais o trabalho de parto, por causa de pequenos miomas no meu útero. Aquilo me soou quase como uma ameaça, mesmo que não o fosse. Uma auxiliar de enfermagem segurava um garrote e vinha em minha direção. Acocorada sobre a cama, tirei uma força de não sei onde e finalmente veio o círculo de fogo. Ardeu, gritei, senti a cabecinha de Luís Norio e seu grito, antes mesmo do corpinho sair. Na próxima contração, quase pulei para fora da cama, e veio o corpinho do pequeno. Madrugada fértil e chuvosa, pari ao som do Concerto Italiano de Bach, às 2h17 do dia de Todos os Santos.

 

A experiência do parto natural humanizado foi vital e transformadora para mim, para Chico e certamente para Luís Norio. Não poderia pensar em boas vindas melhores para nosso filhote. Desejo que cada vez mais mulheres tenham acesso a essa oportunidade maravilhosa que é parir naturalmente e deixar nascer o filho, a mãe, o pai.

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