Perfil: Andrea Campos

31/05/2013

Especialista em parto humanizado, a obstetra Andrea Campos une a sensibilidade às mais recentes evidências científicas para apoiar as mães e receber melhor os bebês.

 

 

 

“Em medicina, muitas vezes existe mais de um caminho possível. É preciso conversar para ajudar cada um a fazer suas próprias escolhas”, acredita a ginecologista e obstetra Andrea Campos. Essa postura de respeito ao protagonismo feminino, cada vez mais fora de moda nos consultórios brasileiros, fica clara logo na primeira conversa: seu papel como médica consiste em auxiliar as mulheres a construir sua própria história. E não em escrevê-la por elas.

 

Consciente de que a medicina de modo geral e a obstetrícia em particular tendem a ver tudo pelo lado da doença, Andrea resolveu investir no caminho oposto, no que chama de ponto de vista da parteira: “A gravidez e o parto podem ter complicações em alguns casos, mas em geral são processos fisiológicos que transcorrem normalmente”. Assim, acredita que, além da rotina de exames, importantes para afastar riscos, o pré-natal é uma oportunidade de ajudar as mulheres e suas famílias a desconstruir o medo do parto, tão arraigado em nossa cultura.

 

No consultório, o fato de não haver uma mesa de trabalho servindo como anteparo entre a médica e a gestante ou o casal dá a primeira pista de que a relação que se pretende construir é de troca. A ausência de outro item sempre presente nos consultórios, a mesa ginecológica, sinaliza que a prioridade é o bem estar da mulher. A possibilidade de substituí-lo por um amigável récamier lhe foi apresentada pela primeira vez no consultório do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, ONG voltada à saúde da mulher onde atendeu durante quatro anos. “Muitas pacientes sentem dor só pelo medo de serem examinadas naquela posição”, justifica.

 

 

Mais do que um simples detalhe, esse cuidado tão sutil revela uma abordagem da gravidez e do parto procurada por um número crescente de mulheres bem informadas, entre elas muitas participantes dos encontros para troca de experiências entre grávidas promovidos pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa, o Gama, onde Andrea também costuma atender.

 

A aproximação de Andrea com o Gama, que tem como principal objetivo promover uma atitude positiva em relação à gestação e ao parto, aconteceu naturalmente em função de seu trabalho na sede do Coletivo Feminista, em Pinheiros, onde também aconteciam as reuniões do grupo. Vieram de lá muitas das gestantes acompanhadas por ela nos últimos anos, mulheres de diferentes profissões e classes sociais, mas com uma importante caraterística em comum: todas queriam para si o papel principal na hora do parto. E encontraram em Andrea uma profissional comprometida em ajudá-las. “Nossa relação é de troca. Aprendo muito com elas”, diz referindo-se às mulheres que acompanha.

 

Com essa visão, reforçada pelos princípios da medicina antroposófica, especialidade com a qual teve contato por intermédio de uma paciente e decidiu estudar há três anos, a obstetra consegue manter um alto índice de partos normais, com apenas 10% de cesáreas, taxa que se enquadra no recomendado como ideal pela Organização Mundial da Saúde. Uma relação inversamente proporcional à encontrada hoje no universo da saúde privada brasileira, onde cesárea se tornou a regra e parto normal, a exceção.

 

Por vontade própria, mais da metade dessas gestantes abrem mão da anestesia, preferindo métodos não farmacológicos de alívio da dor, como a imersão em água morna e o apoio de uma doula, recursos incentivados pela médica. Para aquelas que não querem sentir dor, Andrea trabalha com anestesistas acostumados ao parto normal, que recorrem a uma técnica capaz de aliviá-la sem tirar os movimentos. A parturiente consegue andar mesmo anestesiada.

 

Trajetória profissional

 

 

Nascida em Santos, SP, e criada em Jacutinga, no sul de Minas, filha de um casal de fazendeiros, Andrea cresceu em contato com a natureza. Por sua proximidade com os animais durante a infância e a juventude, chegou a prestar vestibular para veterinária antes de se decidir pela medicina. Interessada em obstetrícia desde o segundo ano da faculdade de medicina, cursada na Universidade de Mogi das Cruzes, conseguiu ainda estudante um estágio no Hospital Escola de Vila Nova Cachoeirinha, onde começou a ter contato com a prática do parto normal.

 

Depois de se formar, em 2001, fez dois anos de residência médica em ginecologia e obstetrícia no Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros. E, embora a essa altura já estivesse convencida de que gostava mesmo era de atender partos, cursou o terceiro ano opcional de residência em oncologia pélvica e mastologia no hospital Pérola Byington. Acreditava que essas especialidades seriam sua garantia de futuro caso o consultório não se sustentasse só com mulheres em busca do parto humanizado, um movimento que naquela época estava apenas começando no Brasil.

 

Esse temor, no entanto, nunca se concretizou. Desde 2004, quando iniciou o atendimento em consultório, só viu a procura por seu trabalho crescer. A ponto de, em 2009, atingir a marca de 60 partos por ano, número que considera ideal para poder conciliar trabalho, estudo e vida pessoal. Conquistou o que queria sem fazer grandes concessões: não trabalha com convênios e não faz cesáreas a pedido, ou seja, sem que haja uma real indicação médica.

 

Antroposofia e alemão

 

Aos 37 anos, solteira e sem filhos, adora viajar. E procura traçar pelo menos um roteiro de férias por ano. Nas horas livres gosta de ir ao cinema, praticar ioga, andar de bicicleta com os amigos e passear pelo parque do Ibirapuera na companhia de Guinli, seu cão da raça whippet. Vegetariana por razões éticas, sonha um dia morar num sítio autossustentável. Dedica boa parte de seus finais de semana ao estudo: em 2008 iniciou o curso básico de medicina antroposófica, que lhe despertou o desejo de aprender alemão, idioma que hoje estuda com afinco. 

 

Desde 2004, quando abriu consultório, atendeu mais de 550 partos. Número que não leva em consideração os incontáveis nascimentos que acompanhou em plantões. Vem da experiência em hospitais públicos boa parte de sua habilidade para atuar em casos considerados mais difíceis. “No Pedreira, atendi mais de 10 pacientes primigestas (grávidas do primeiro filho), que chegaram ao hospital no período expulsivo do parto, com o bebê pélvico (sentado)”, cita como exemplo. O parto de bebês pélvicos é pouquíssimo praticado pelos médicos, que nesse caso costumam preferir a cesariana, embora essa não seja uma indicação absoluta de cirurgia.

 

A oportunidade de trabalhar no Hospital Pedreira veio de um convite do obstetra Jorge Kuhn, na época chefe daquele hospital e hoje um importante nome do parto humanizado no Brasil, com quem Andrea havia trabalhado no hospital Leonor Mendes de Barros. Era o início de uma parceria bem sucedida e que dura até hoje. Com ele, Andrea aprendeu, por exemplo, a técnica da versão cefálica externa, manobra para virar de cabeça para baixo o bebê que permanece sentado próximo à data provável do parto. Conhecida e praticada pelos obstetras mais antigos e mesmo por muitas parteiras tradicionais, a técnica está se perdendo com a popularização do parto cirúrgico no Brasil.

 

Começou a atender partos em 2004, ao lado de Kuhn e de sua mulher Esmerinda Cavalcante, a Mema, também ginecologista e obstetra. Três anos depois, passou assistir as pacientes também com a obstetriz Marcia Koiffman, que se tornaria outra de suas importantes parceiras de trabalho e com quem compartilha uma mesma visão do parto.

 

“No Brasil, como muita gente faz cesárea, a mulher que opta pelo parto normal muitas vezes está cercada de pessoas que não acreditam nisso. E que só falam coisas negativas. Para se fortalecer, precisa encontrar pessoas que pensam como ela. E ver que esse desejo não é uma coisa errada, fora do padrão”, explica Andrea. É essse o papel da Casa Moara, espaço de convivência de grávidas e suas famílias recentemente criado por Andrea em parceria com Jorge Kuhn, Mema Cavalcante e Márcia Koiffman. Sugerido por ela, que o ouviu de um professor da pedagogia Waldorf durante um encontro de antroposofia, o nome Moara resume a essência do trabalho do grupo: em tupi-guarani, Moara é aquele que ajuda a nascer. Nada mais apropriado para descrever o trabalho de Andrea, que alia técnica e sensibilidade para ajudar mulheres que não abrem mão de vivenciar de forma plena o nascimento de seus filhos.

 

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*Luciana Benatti é jornalista e autora do livro Parto com Amor (Panda Books).

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