Perfil: Esmerinda Cavalcante (Mema)

06/06/2013

Como médica auxiliar em partos humanizados, Esmerinda Cavalcante fez as pazes com a obstetrícia. Hoje o que mais gosta é de apoiar as mulheres durante o parto.

 

 

 

 

Na família da ginecologista e obstetra Esmerinda Maria Cavalcante, a Mema, o parto sempre foi encarado com naturalidade. A começar por sua mãe, que teve sete filhos em casa, em Maceió. O nascimento de Mema foi o mais inusitado deles. “Meu pai saiu para buscar a parteira levando junto os quatro meninos, era sábado de carnaval. Quando voltou, eu já tinha nascido. Foi a maior festa porque era uma menina”, conta. Por causa desse episódio e também de seu jeito acelerado, sua mãe gostava de dizer que ela sempre foi ligeira, até para nascer.

 

Como era tradição na família, os partos de Mema também foram rápidos. “O primeiro, da Renata, durou duas horas e meia. No segundo, a bolsa rompeu em casa, eu fui voando para o hospital e a Clara nasceu 35 minutos depois, com duas forças. O terceiro, do Otávio, demorou um pouco mais: três horas. Tomei anestesia nos três, porque era rotina, não precisava pedir.” Seu marido, o ginecologista e obstetra Jorge Kuhn foi quem “pegou” os três bebês.

 

A medicina entrou na vida de Mema por influência de seu irmão mais velho, hoje cardiologista e professor da Universidade Federal de Alagoas. “Eu achava o máximo quando ele chegava em casa contando as histórias da faculdade”, lembra ela. Antes de passar no vestibular de medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco, Mema cursou fisioterapia na Universidade Federal de Pernambuco. Formada, chegou a trabalhar na área durante os anos em que estudava para se tornar médica.

 

Concluído o curso de Medicina, mudou-se para São Paulo onde se tornou estagiária no serviço de Obstetrícia e Ginecologia da antiga Casa Maternal e da Infância Dona Leonor Mendes de Barros. Lá conheceu o então médico residente Jorge Kuhn. Em 1983, passou num concurso para a Prefeitura de São Paulo e começou a trabalhar primeiro no hospital Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, depois no hospital Saboia, no Jabaquara, até se tornar chefe de uma Unidade Básica de Saúde. Hoje, ainda funcionária da Prefeitura, atua no programa Rede de Proteção à Mãe Paulistana.

 

“Eu sempre gostei muito de Obstetrícia, por ser uma especialidade concreta: a mulher engravidou e o bebê está crescendo. As coisas subjetivas nunca me chamaram a atenção. Sou mais prática na vida”, define-se Mema. Sempre ligada à área de saúde da mulher, Mema passou a sofrer com o excesso de cesáreas que via acontecer ao seu redor. A sensação piorou depois de uma temporada de um ano e meio em que viveu e estudou na Alemanha, onde o marido Jorge realizava sua pesquisa de doutorado.

 

“Lá eu realmente constatei como estava errada a prática obstétrica no Brasil. Aqui, se o bebê não nasce em uma ou duas horas, a mulher vai para a faca.” Ela conta que foi muito mais fácil se adaptar no exterior do que se readaptar no Brasil. “As coisas lá são corretas. Eu me acostumei. Quando voltei, tive um choque de cultura.” Não que os primeiros meses em Berlim tenham sido fáceis. Mema, que viajou com os três filhos pequenos, havia estudado só dois semestres de alemão. “Tive de me virar. Ia ao banco, ao correio, ao supermercado, levar os meninos à escola, participar de reuniões”, lembra.

 

Na volta, cada vez mais desiludida com a obstetrícia, foi deixando de atender partos e passando a atuar apenas como assistente. “Cheguei a auxiliar alguns colegas, mas era o mesmo problema: eu não concordava com a indicação da cesárea e não podia falar nada porque a paciente não era minha. Por outro lado, não achava certo ficar sofrendo.”

Há dez anos, ela tomou uma importante decisão: restringiu sua atuação em obstetrícia a auxiliar três profissionais humanizados: Jorge Kuhn, Andrea Campos e Cátia Chuba. “Quando eles precisam de mais um médico para ajudar no parto, vou junto e gosto bastante”, diz satisfeita com o caminho escolhido.

 

Na hora do parto, além de ajudar em alguns procedimentos médicos e se revezar com o obstetra principal na espera por partos mais demorados, o que ela mais gosta é de dar suporte emocional à parturiente. “O trabalho de parto é um momento em que ela precisa muito ter uma mulher ao lado, como se fosse uma mãe. Isso quando aceita, é claro, porque algumas mulheres não se permitem. Nesse caso eu me afasto”, diz Mema.

 

O movimento da humanização do parto, que aproximou os profissionais da Casa Moara, também faz parte da vida de Mema. “Embora como auxiliar eu não seja mais a principal responsável pelo evento do parto, participo bastante das discussões.” E influencia sua prática em consultório. “Nunca fui uma médica muito intervencionista, mesmo na ginecologia. Depois que entrei no movimento da humanização estou menos ainda.” Nessa direção, deixou de fazer cirurgias e passou a se dedicar mais à orientação da concepção e do planejamento familiar e à prevenção do câncer ginecológico.

 

Com os filhos crescidos, mas ainda apaixonada pelo universo dos bebês, Mema agora anseia pelo momento de se tornar avó, o que ainda deve levar alguns anos. “Está todo mundo animado para ter um nenê na família”, revela sorrindo.

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* Luciana Benatti é jornalista e editora do site Parto com Prazer.

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