“Muitos obstáculos podem ser superados com informação e apoio”

 

 

Falar de amamentação só se tornou um prazer depois do nascimento da minha segunda filha, Maria Alice, hoje com um ano e quatro meses. Até então o que tinha era a lembrança triste de uma tentativa de amamentação exclusiva frustrada, sem ao menos entender o que de fato acontecera.

 

Minha história com a maternidade começa com a relação com a minha mãe, mas isso é uma outra história… Valendo dizer que, mesmo tendo nascido de cesárea, fui amamentada até um ano e meio, e com muito orgulho, pela minha mãe.

 

Quando engravidei pela primeira vez, minha bebê, a Ana Clara, hoje com quatro anos, ficou sentada durante toda a gestação, e por isso tive a indicação de realizar uma cesárea eletiva. Na época não tinha o hábito de questionar indicações médicas e acreditava que aquilo que o médico não orientasse aconteceria por obra da natureza, dos deuses, sei lá. Esperava que depois que minha filha nascesse, o fato de ter sido cesárea ou parto normal – naquele momento isso me parecia indiferente –, não iria interferir no processo de amamentação.

 

Então Ana Clara nasceu, tivemos alta e fomos para a casa com a orientação de dar de mamar a cada três horas. Nos primeiros dias tudo foi transcorrendo dentro do que eu achava ser normal, mas a Ana ficava horas no peito, às vezes mais de uma hora. Ao longo dos dias, meu peito começou a ficar muito machucado até que, com 10 dias de vida, não aguentando de dor, com o bico todo esfacelado, fui a uma consulta com o pediatra. Lá, pior do que a dor nas mamas, foi constar que ela não tinha nem recuperado o peso que perdera na maternidade.

 

Lembro-me ainda de ter comentado com o médico de que ela era uma bebê tranquila, que só dormia e não chorava. Ele me respondeu: “Vamos ver se ela é boazinha ou se está economizando energia. Se estiver engordando, é boazinha; se não, está economizando energia”. Não sei se naquele dia eu chorei mais por ter que dar fórmula para a Ana Clara ou por me sentir fracassada, sentir que nem tudo estava dando tão certo quanto eu achava que ia ser, por me sentir diminuída de não conseguir amamentar minha menina.

 

Com certeza a dor no peito (físico) era a que menos doía. Fiquei três dias sem vestir blusa e sem deixar cair água do banho direto no peito, de tanta dor. Ficava andando pela casa com os peitos de fora, pingando. E passei quase dois dias sem dar de mamar. Não recebi nenhuma orientação com relação a relactação, mas sempre dava o peito e depois a mamadeira. Os primeiros dias foram um tormento pois queria de qualquer forma que ela voltasse a mamar só no peito. E logo! Ligava direto para o pediatra, que recomendou primeiro um, depois outro medicamento para estimular a produção. Mas nada mudava a rotina das mamadas. A Ana começava a mamar e cinco minutos depois já estava chorando e puxando meu peito desesperadamente.

 

Acho que depois que ela descobriu o que era comer, aprendeu a chorar. Quando tive retorno no obstetra que fez o parto, pela primeira vez ouvi algo que me eximia da culpa de não poder amamentar. Ao contar sobre meus primeiros 45 dias como mãe que não amamenta exclusivamente, ou seja, apenas com leite do peito, ouço a seguinte fala: “É interessante, mas existem bebês que não têm a pega adequada e isso dificulta mesmo a amamentação, pois não estimula a produção de leite.” Sem orientações melhores e sem tomar a iniciativa de tentar reverter essa situação, segui conformada até os quatro meses, quando voltei a trabalhar e ela parou de mamar. Eu me sentia tão triste por ser mais uma mulher que, como tantas outras atualmente, aumentava as estatísticas do “não pude ter parto normal”, “ não tive dilatação”, “não pude amamentar”, “tive pouco leite”.

 

Mas o tempo passou e para minha felicidade a Ana Clara sempre foi – e ainda é – uma criança muito saudável. Eu me convenci de que foram as “doses homeopáticas” do meu leite, como costumo dizer, que contribuíram para isso. Dois anos e meio depois, engravido novamente. E todos os fantasmas que nem acreditava mais que existiam aparecem para me mostrar o quanto aquela cesárea e a não amamentação tinham deixado marcas em mim.

 

Neste momento tomei as rédeas de minha vida e de mim mesma, como mulher e como mãe. Eu não teria outra cesárea! E, bem mais informada sobre os processos da amamentação, seria sim capaz de amamentar!

 

Depois de um parto planejado para ser domiciliar, mas que necessitou de transferência (nada grave) e virou um parto natural hospitalar, de ficar somente um dia na maternidade e o tempo todo com minha bebê, lá fomos nós para a casa. No terceiro dia, na visita da parteira (um dos meus anjos), vieram as perguntas básicas: “Sentiu o leite descer?” Não. “Sentiu o peito encher?” Não. Ai que medo! Mas a Maria Alice, que nasceu de baixo peso, 2.200 g, com 41 semanas de gestação, estava engordando, o que era um bom sinal. Sem regras de amamentar de três em três horas, em livre demanda, e com esse histórico de não amamentação exclusiva, acordamos em fazer uso de um medicamento para estimular a produção de leite por um tempo, para garantir que a amamentação supriria por si só as necessidades da Maria Alice.

 

Não tenho certeza se o remédio influenciou. Meu peito nunca encheu, nunca senti o leite descer, mas Maria Alice ganhava peso, e era isso que importava! Depois de alguns dias, com a orientação médica, suspendi o remédio. Até então era acompanhada por um pediatra que apoiava muito a amamentação: mesmo ela sendo de baixo peso, não tendo recuperado o peso logo de início e apesar dos choros muito frequentes, em nenhum momento me foi dito que isso era devido à falta de leite. Iniciamos um tratamento para refluxo que melhorou bastante seus choros e sua rotina, uma vez que antes disso ela não dormia mais do que dez minutos seguidos.

 

Depois de um tempo, por questões orçamentárias, precisamos mudar de pediatra. Tive que conhecer diversos até decidir que não valia a pena ouvir a opinião de quem não pensava como eu. Recusei as recomendações de introduzir suco de laranja aos três meses e de suspender uma mamada porque ela não estava no peso ideal (também fui bem orientada por uma grande nutricionista que me explicou porque isso não era recomendado), além de recusar a introdução de outros alimentos só porque ela estava com quatro meses (e daí?, é por isso que eu tenho licença de seis meses). Mas, embora a recuperação do peso fosse algo que não nos preocupasse, tínhamos que ter certeza de que estava tudo bem.

 

Foi então que procuramos outra pediatra, que maravilhosamente nos explicou tudo sobre bebês PIG (pequeno para a idade gestacional) e as possíveis consequências de uma dieta não equilibrada. E lá continuamos nossa amamentação exclusiva até os seis meses, quando eu voltaria a trabalhar. E é obvio que para este momento eu teria que estar preparada, pois não queria usar fórmula novamente. Foi aí que encontrei uma bomba elétrica de segunda mão e não tive dúvidas em adquiri-la, já que desde sempre planejava ter outro filho e também poderia emprestar para as amigas.

 

Como sempre achei que não fosse uma vaca leiteira, comecei a coleta de leite com certa antecedência para não correr o risco de ficar sem. Devo dizer que era uma rotina cansativa. E entendo porque nessas horas muitos relacionamentos acabam: você e a bombinha acabam virando uma só coisa. Sem contar que no trabalho era um saco: ir para um local isolado e discreto nem sempre era possível. Mas eu estava tão decidida que iria alimentar a Maria Alice só com o meu leite, que realmente enfrentava todas essas dificuldades e transtornos.

 

Nessa época ela já experimentava outros alimentos. Com o tempo, consegui me organizar de tal forma que estava sobrando leite. Resumindo, acionei um banco de leite para fazer doações. Pois é, parece mentira, mas é verdade. Precisei fazer isso algumas vezes e descobri que: 1. O banco de leite tem uma estrutura de coleta precária, então resolvi levar o leite ate lá e 2. O leite de bebês com mais de seis meses é oferecido aos bebês do berçário, que estão internados; já o leite de bebês com menos de 6 meses vai para os bebês da maternidade.

 

Pronto, refiz minha história. Aprendi que muitos obstáculos podem ser superados com informação e apoio. E que, quando algo é importante para você, vale muito a pena lutar. Ainda sinto tristeza por não ter vivido a delícia que é amamentar com a minha primeira filha, Ana Clara, mas o tempo não volta atrás e acredito que um dia isso será superado.

Bom, no final dessa história tenho duas filhas que comem feito elefantes: a Ana Clara é alta e magra e a Maria Alice custou para chegar aos 8.500 g, que é o que ela pesa hoje. E eu no meu trabalho sou conhecida como “banco de leite” porque uma vez esqueci o celular e sabe como identificaram que era meu? É que na agenda tinha o telefone do banco de leite!

 

Espero que todas que lerem essa história não tenham dificuldades grandes com a amamentação, mas, se tiverem, não desistam. Façam tudo o que puderem, busquem informações e ajuda porque são alguns meses que nos marcam para sempre!

 

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October 15, 2019

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