"As parteiras acreditaram que eu poderia parir"

 

Engravidei pela primeira vez quando tinha 23 anos.

 

Submeti-me a uma cesárea porque o obstetra disse que eu não tinha dilatação para um parto normal, meu filho começaria a sofrer, estava muito grande . Imaginava que uma gestação saudável me daria um parto normal. Meu filho João, quando nasceu, recebeu todas as intervenções desnecessárias com direito a UTI, fototerapia e conjuntivite causada pelo nitrato de prata, enfim, todo o “pacote” oferecido pela maternidade bacana do convênio. O João não mamou na primeira hora, tomou leite em pó sem o meu consentimento, ficou um dia inteiro dentro de uma UTI neonatal em “observação” e mais um dia no banho de luz.

 

Engravidei novamente em 2006, com a certeza de que teria um parto diferente, mas não sabia como.

 

Durante o pré-natal troquei de obstetra três vezes. Durante a minha busca por um profissional que me deixasse parir sem anestesia e episiotomia, ouvi coisas como: “Eu posso até esperar você entrar em trabalho de parto e fazer uma cesárea!”, “Você já tem uma cesárea prévia, então é outra cesárea, você não pode ter parto normal”, “Isso é coisa de bicho”, “Sem anestesia, de jeito nenhum! Como eu vou usar o fórceps?”. Estava desesperada.

 

Iniciei a hidroginástica e, no primeiro dia de aula, minha nova amiga Adriane, me falou de uma doula chamada Thais Medeiros. Iniciei pesquisas na internet e fui descobrindo as batalhas que as mulheres precisam travar para conseguir um parto normal com respeito.

Participei da lista de discussão na internet Amigas do Parto e ficava super empolgada com os relatos de parto domiciliar. Meu marido dizia que de jeito nenhum, jamais.

Comecei a visitar hospitais que o meu convênio admitia e a cada visita ficava mais desanimada.

 

Um belo domingo, na 35ª semana, fomos conhecer o último hospital, o “mais humanizado” do livrinho do convênio. Quando saímos de lá, comecei a chorar de desespero. Era um hospital, com cheiro de hospital, cama de hospital, gente de hospital.

Depois dessa visita, meu marido disse que eu poderia buscar mais informações sobre o parto domiciliar, se fosse bacana e seguro ele toparia.

 

Fui morar dentro do olho do furacão. Fiz tudo, movimentei tudo, li tudo, reuni todos os relatos, falei com a doula, que me indicou um dupla de parteiras.  As consultas do pré-natal com as parteiras foram absolutamente diferentes das consultas com os médicos. Elas são especiais, comadres. Apalpam, sentem, cheiram, olham nos olhos e conversam ao redor da mesa da cozinha. Sabem tudo sobre barrigas e nascimentos e respondem a tudo de forma carinhosa e doce. Parteira enfeitiça.

 

Escolhi um parto em casa, com parteira, porque queria acolhimento, queria escrever uma nova história para o meu filho João. Desejava que o João, nascido tão violentamente naquela cesária, sentisse um parto, um nascimento, entendesse o caminho, pudesse receber aquele primeiro abraço, sentir o sopro daquele primeiro amor, observando o nascimento do irmão. O João viveu intensamente o nascimento do Pedro, ficou comigo o tempo todo, permeou o parto com algumas frases do tipo: “Calma, mamãe, ele já vai nascer”, “Mãe, aguenta, que quando ele nascer você vai ficar magrinha”, “Mãe, está doendo mais vai sarar”, “A mamãe está fazendo assim: ahhh, uhhh, aiii…”

 

A música para o nascimento do Pedro foi o João que escolheu e dançou minutos antes do irmão nascer: Marina Lima, “…essa noite eu quero te ter, te envolver, te seduzir…”

 

O João segurou a lanterna para o Pedro nascer e chorou de emoção.

Depois do Pedro, nasceu a Leona, também pela mão das parteiras.

As parteiras ligaram os dois lados de uma ponte que havia caído lá no parto do João. Acabaram com uma dor, um medo, uma ausência. Elas acreditaram desde o primeiro segundo que eu poderia parir, que era capaz.

 

Nos guiaram nesse resgate de estima, de confiança. Nos colocaram frente a uma emoção que todas as mulheres e suas famílias deveriam ter a oportunidade de sentir.

Meu amor e eterno respeito pelo trabalho dessas mulheres parteiras.

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Fotografias por:  Kátia Ribeiro,  Bia Takata, Lela Beltrão, Marcelo Min, Cristiane Pereira e Carla Raiter / Acervo Casa Moara