Nós quatro para sempre - Nascimento de Alice

27/11/2015

O início da história…

Minha primeira filha, a Luisa, nasceu de parto normal hospitalar. O quarto era um ambiente agradável e a janela tinha uma vista agradabilíssima, de árvores com folhagem vermelha outonal. A equipe humanizada me respeitou o tempo todo e fez com que aquele momento mágico se tornasse inesquecível.

 

Na época, eu já sabia dos malefícios que a anestesia, quando não bem indicada, poderia causar, como por exemplo prolongar o trabalho de parto. Mesmo assim, eu optei por tomar anestesia. Um dos motivos foi porque eu não estava preparada emocionalmente para lidar com as dores do parto. Outro motivo foi porque estava nos EUA, e sabia que lá o trabalho de parto não tem que seguir esse relógio imaginário criado aqui no Brasil, que dura apenas 12 horas. E também porque, muitas vezes, mesmo quando estamos recheados de informação, é muito difícil quebrar paradigmas.

 

Por conta da anestesia, tive que receber ocitocina sintética e passei as últimas horas restrita ao leito pela impossibilidade de andar, apenas esperando ela chegar em meus braços. O mais importante para mim foi ter acolhido a Luisa nas suas primeiras horas de vida.

 

Naquele momento, mais importante que decidir entre parto normal com anestesia e natural era saber que ela viria para meu colo e não receberia nenhum procedimento dolorido e desnecessário. Porém, quando eu tive que fazer uma pequena cirurgia, já grávida da minha segunda filha, Alice, percebi na prática que essa decisão (anestesia x não anestesia), é extremamente importante.

 

Na vigésima segunda semanas de gestação da Alice, eu fui diagnosticada com um pólipo sangrante no útero. Era preciso removê-lo, pois estava próximo à bolsa e o sangramento, que já durava alguns dias, poderia rompê-la e estimular parto prematuro. Seria um procedimento simples, indolor que poderia ser feito durante exames de rotina em qualquer laboratório.

 

Eu fui sozinha para exame e retirada do pólipo. Durante o procedimento, a médica verificou que o pólipo estava muito vascularizado, com vasos calibrosos, alto risco de hemorragia e possibilidade de entrar em trabalho de parto no momento da retirada. A indicação foi então para que o procedimento fosse realizado no hospital, para dispor de assistência adequada em caso de emergência.

 

Agendamos o procedimento no hospital para a semana seguinte. Fui para o centro cirúrgico e tomei anestesia raquimedular. O procedimento foi realizado, felizmente, sem nenhuma intercorrência. Porém, no dia seguinte, apareceram cefaleia, dor na lombar, mal-estar e indisposição. Passei uma noite no hospital e fui para casa ainda sem conseguir cuidar adequadamente da Luisa por uns dois dias.

 

Logo percebi que um procedimento simples, que seria realizado no laboratório, de onde eu voltaria sozinha para casa, transformou-se em um evento complexo do qual eu não consegui sair dirigindo, simplesmente pelo fato de eu ter ido ao centro cirúrgico e ter tomado anestesia, soro e outros medicamentos. Foi uma intervenção necessária, mas que trouxe consequências.

 

Assim eu decidi que dessa vez faria diferente. Que eu não arriscaria um sofrimento fetal pela ocitocina sintética e faria o máximo para não recorrer à anestesia na hora do parto.

Parto domiciliar – para a minha Alice e Luisa.

 

Na semana seguinte, eu e o André, meu marido, fomos visitar a maternidade do hospital que tínhamos escolhido para a Alice nascer. Foi uma visita guiada e em grupo. Visitamos o centro cirúrgico, a sala de parto normal, mas, foi quando paramos por alguns instantes na frente da sala de pré-parto. Enquanto a moça do Concierge dava algumas explicações, nós dois  trocamos olhares. Já tínhamos entendido um ao outro e, juntos, fizemos um não com a cabeça.

 

Na primeira oportunidade, cochichamos o que já sabíamos. Não queríamos o nosso parto dentro de um ambiente hostil, invasivo e impessoal como o do hospital. Não estávamos doentes.

 

Aos poucos fomos amadurecendo essa ideia, informando-nos sobre riscos e benefícios e curtindo o conforto de ter nossa Alice em casa; mas os dois principais motivos que nos levaram a tomar essa decisão foram: Luisa e Alice.

 

Ainda naquela visita ao hospital, enquanto caminhávamos pelo berçário, perguntei a uma enfermeira como é o procedimento com os recém-nascidos e uma das minhas perguntas foi em relação ao banho. A resposta que obtive foi que o primeiro banho é dado obrigatoriamente pela equipe de enfermagem, quando levam o bebê para fazer os primeiros testes, e eu não posso recusar.

 

Eu tenho vontade de chorar cada vez que vejo um vídeo no Youtube do “primeiro banho do(a) fulano(a)” (que na verdade já é o segundo banho). A mãe do outro lado do vidro do berçário, com um sorriso enorme enquanto seu filho é banhado por mãos frias, desconhecidas e robotizadas. O bebê, em geral, grita desesperadamente com aqueles bracinhos esticados para cima. Medo e desconforto.

 

Como alguém pode aceitar e achar isso normal? Onde está o direito do bebê em ouvir a voz calmante da mãe ou receber o toque carinhoso dela nesse momento? Todos aqueles testes e vacinas são intervenções necessárias e importantes para a saúde, sem dúvidas. Porém, baseando-se nas evidências científicas mais recentes, eles não precisam ser feitos necessariamente no primeiro dia de vida. Por isso, optamos por dar um nascimento o mais humanizado possível para a Alice. Optamos para que ela pudesse chegar pelas minhas mãos. E nos meus braços ficar.

 

Decidimos que não sairíamos de casa por dois ou três dias (tempo de internação hospitalar) e, de repente, apareceríamos pela porta da sala com um bebê no colo. Decidimos que a Luisa participaria de tudo. E assim foi. Do crescimento da barriga e consultas pré-natais, ao parto. Um evento familiar. Um bebê chegando para acrescentar e não para tirar.

 

O parto da Alice
Foram menos de 3 minutos de período expulsivo e lá estava ela. Dentro do nosso quarto. Dentro da água quente. E da água, para o meu colo. Eu mesma a peguei. Inacreditável. Ainda busco palavras para descrever esse momento. Dor? Sim, eu senti dor e em algum momento eu quase desisti. Eu estava cansada, afinal foram quase 28 horas de trabalho de parto para ter a dilatação total.

 

Entrei em trabalho de parto na quinta-feira à noite, dia 27 de agosto. Passei a madrugada acordada pois as contrações já estavam razoavelmente fortes e não me deixavam dormir. Eu também estava ansiosa. Tínhamos passado o último mês preparando tudo o que era necessário para o parto e não via a hora daquele momento chegar.

 

Na sexta-feira pela manhã quando levantamos, apesar de intensas, as contrações estavam ficando mais espaçadas. Mesmo assim o André não foi trabalhar, pois eu já sentia que a Alice estava chegando. Então decidimos passear. Logo cedo eu, ele e a Luisa saímos para caminhar numa tentativa de ajudar as contrações a pegarem ritmo de novo.

Foi uma manhã deliciosa. Quente e ensolarada. Paramos na padaria para tomar café e depois caminhamos até a biblioteca do bairro. Era a última vez que seríamos apenas nós três passeando.

 

 

 

Voltamos para casa e logo depois do almoço a equipe chegou. Preparamos o quarto. Banheira cheia, luz indireta, silêncio e uma sensação de aconchego enorme. Não me lembro exatamente dos tempos em que tudo aconteceu, mas lembro que foi no meio da tarde que as contrações pegaram ritmo novamente.

 

Consegui dormir um pouco à tarde com o André e a Luisa. Tínhamos de descansar, pois tudo indicava que o processo seria demorado, mas a ansiedade tomava conta de mim. Temia que as contrações se espaçassem novamente. Dormi por mais ou menos meia hora.

 

Apesar das contrações já estarem doloridas, foi apenas à noite que as dores começaram a me silenciar. Eu já não conseguia mais falar durante as contrações. Precisava fechar os olhos, respirar e me concentrar.

 

 

 

Mas eu estava em casa e isso muda tudo. Estava à vontade suficientemente para mudar de posição, pedir o que eu precisava, comer e tentar movimentos novos para aliviar as dores. E nos intervalos delas, conversávamos e brincávamos maravilhados com o que estávamos vivenciando.

 

Na maior parte do tempo, ficamos apenas eu e meu marido no quarto e a nossa doula, que me ajudou muito com as massagens e manobras na lombar, exercícios na bola e posicionamentos. De vez em quando nossa enfermeira obstetra vinha avaliar o coraçãozinho da Alice. Minha mãe ficou pela casa brincando com a Luisa, que às vezes entrava no quarto perguntando pela irmãzinha. Lá pelas 22 horas ela até entrou na banheira comigo. Eu estava encantada com o fato dela, com apenas 1 ano e 9 meses de idade, compreender e lidar com aquela situação de forma tão madura, principalmente com as dores que a mamãe dela estava sentindo.

 

As últimas três horas de trabalho de parto foram as mais difíceis. Contrações a cada minuto, de perder o fôlego. É a fase de transição, parte mais difícil, não pela dor das contrações em si, mas pelo fato delas estarem tão próximas umas das outras que não há mais intervalo para descansar e recuperar as forças. Nessa hora, as palavras de incentivo da enfermeira obstetra foram cruciais para me manter em casa. Faltava pouco. Muito pouco.

 

 

 

Eu também contava com o André que ficou ao meu lado o tempo todo e aguentou todos os puxões e apertos que eu dava nele durante as contrações. E para ajudar a controlar o emocional eu tentava manter em mente uma frase que aprendi durante a minha gestação: a dor existe, mas o sofrimento é opcional.

 

Em cada contração eu lembrava de uma analogia que a minha doula fez e que me marcou muito. Um maratonista sente dor, mas ele não está necessariamente sofrendo, muito pelo contrário, ele está tomado de força interior para atingir um objetivo e conquistar a vitória. Não há prazer maior para ele do que atravessar a linha de chegada.

 

 

 

Às vezes era difícil me concentrar. Lembro que em certo momento eu desejei que as contrações espassassem um pouco para eu descansar, mas logo eu lembrei o quão frustrante foi aquela manhã, quando as contrações quase pararam. Naquela manhã eu chorei ao pensar que a minha Alice poderia não chegar naquele dia. Então, eu lembrava que cada contração me deixava mais perto da minha filha, que cada contração era motivo para eu querer outra.

 

O circulo de fogo. É assim que descrevem a dor da passagem da cabeça do bebê pelo canal vaginal. Nesse momento você já está viajando, anestesiada pelos seus próprios hormônios. Lembro-me de que as dores das contrações eram muito maiores que as dores da passagem, que na verdade, não foram dores. Foi a sensação mais incrível e deliciosa que já tive. Indescritível. Inimaginável. Fui privilegiada. Sentir sua filha coroando e nascendo, participando ativamente do processo é transformador. É chegar no ápice da feminilidade.

 

A única coisa que eu ouvia naqueles três minutos era a voz chorosa e emocionada do meu marido dizendo: “não acredito, ela está vindo, está nascendo”. A emoção nas palavras dele me animava e me enchia de forças para trazê-la logo para nós.

 

E assim eu passei a mão em sua cabecinha e a senti pela primeira vez, antes mesmo dela terminar de nascer. Em instantes, vi aquele corpinho mergulhado na banheira junto comigo. E foi pelas minhas próprias mãos que a conheci. Eu a peguei e a abracei da melhor forma como eu poderia recebê-la: em êxtase, como se tudo o que eu tinha passado não houvesse acontecido.

 

 

 

Parto é vida

Hoje, mais do que nunca, entendo o porquê de tanto movimento e ativismo pelo parto natural. Intervenções médicas devem ser realizadas somente se necessário. Parto não é doença. É vida. Além disso, é um despropósito as mulheres se privarem e serem privadas do prazer de parir.

 

A Alice nasceu exatamente à meia noite e dezesseis minutos do dia 29 de agosto, no silêncio, no escurinho e rodeada de amor. Grandona, com 3,950 kg e 53 cm. Minutos depois, fomos para a cama, o André cortou o cordão umbilical, que já tinha parado de pulsar, e ficamos curtindo aquele rostinho, enquanto eu a amamentava.

 

Nossa equipe ficou com a gente até as três da manhã nos ajudando e cuidando de mim e da Alice. Nessa hora, a Luisa já tinha ido dormir em outro quarto. Então, eu, o André e a Alice dormimos naquela cama mesmo. Não há nada mais incrível que o conforto de estarmos, já na primeira noite, em nossa casa. Em nossa cama.

 

Assim que o sol nasceu e a Luisa acordou, ficamos todos naquela cama dando boas-vindas à ela. Éramos nós quatro juntos. E agora seremos para sempre nós quatro.

 

 

 

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