Parir é Poder

20/01/2016

Milena sempre sonhou com a maternidade. Ao realizar o desejo de ser mãe, percebeu o quanto a experiência de partos normais em sua família a cercou da certeza de que também queria trazer seu filho ao mundo da maneira mais natural possível. E assim foi. De quebra, descobriu que parir é poder.

 

 

Meu relato começa muito antes do dia do parto do Felipe ou dos 9 meses da minha gravidez. Sou aquele tipo de mulher que passou a vida inteira sonhando em ser mãe, desde criança mesmo. Cuidar de bebê, gravidez, amamentação, sempre foi o que me agradou.

Sempre sonhei com um parto natural, tranquilo, sem intervenções. Deve ser por ter avó que pariu oito em casa, bisavó parteira. Na minha família, só tem partos normais. Ou deve ser por eu ser uma medrosa, que não fura nem orelha. Tenho pavor de cirurgia. Pavor de furar veia, pavor de injeção.

 

A cada amiga, prima, conhecida, vizinha que engravidava e era submetida a uma cirurgia cesariana ficava sem entender por que tantas mulheres precisavam daquilo. Um dia foi o estopim e comecei a me informar. Descobri aí um sistema pavoroso. Mutilador de mulheres, bebês e seus sonhos. Um sistema de mitos e mentiras. Um sistema violento. Um sistema que não acolhe, que não abraça. Um sistema que mascara, que desrespeita. Um sistema que encoraja mulheres a extraírem bebês que ainda não estão prontos de seus úteros. Um sistema que não informa que a cesariana mata três vezes mais e que causa cento e vinte vezes mais problemas de saúde nos bebês (respiratórios, alergias). Um sistema que está trazendo uma geração de pessoas mais propensas a doenças. Um sistema obstétrico falido e do qual tenho vergonha. Um problema de saúde pública.

Ali prometi a mim mesma que quando chegasse a minha vez, eu e meu filho não passaríamos por aquilo. Eu ia dar todo o melhor pra ele, desde a barriga, desde sempre.

Estudei muito, fiz cursos, me informei, informei pessoas. Me preparei muito. Por que aqui não tem mãezinha. Aqui não rola ninguém falando o que é melhor para o meu filho. Isso quem sabe sou eu.

 

Informei meu marido Luciano e procurei a cada dia trazê-lo para esse mundo comigo. Pouco a pouco ele estava ao meu lado. Com as ressalvas dele, mas respeitando meu desejo e se informando (da maneira dele) também. Pronto, se ele estava comigo, o caminho estava aberto. Sempre deixei uma coisa bem clara: o corpo é meu, mas o filho é nosso. Ele precisava estar ao meu lado para tudo correr bem.

Tinha o desejo do parto domiciliar. Aliás, não tinha a menor dúvida de que era isso que queria (e ainda quero!) para mim e para o meu bebê. Porém, Luciano me pediu para que fosse no hospital. Já que era nosso primeiro filho e ainda não tínhamos vivido um parto. Pedido respeitado.

Vivemos uma gestação maravilhosa, sem qualquer intercorrência, mamãe e bebê muito saudáveis. Optamos pelo pré-natal humanizado, sem inúmeras medicações e exames. Passamos os nove meses na gravidez sem nenhum exame de toque, quatro ultrassonografias apenas, muita conversa, informação e carinho em cada consulta. Olho no olho. Costumo dizer que meu pré-natal foi repleto de sessões de terapia. Ali eu era uma mulher gestando seu bebê e precisava de informação, carinho, suporte e só.

Nossa equipe multiprofissional foi montada a dedo. Era só esperar o grande dia.

 

Felipe estava tranquilo na barriga. Cheguei nas 40 semanas e eu, que até então estava muito tranquila, comecei a ficar ansiosa. Procurava sinais, conversava com ele e nada. Escrevi carta pra ele, fiz despedida da barriga e nada. Continuava a espera.

 

 

Na véspera de completar 41 semanas, às 20h, chego em casa com um super “piriri” e ao sentar no vaso noto sangue na minha calcinha. Avisei a obstetriz e a doula. Ambas me falam que meu colo estava enviando sinais, mas que era para eu ficar calma pois não era trabalho de parto ainda. Eu estava calma, mas feliz! Tomei banho e avisei meu marido.

Meia noite começo a ter algumas contrações doloridas, mas espaçadas. Assim passamos a noite toda. Eu e meu marido no sofá. Eu e as contrações. Como as desejei! Abro um sorriso toda vez que penso que elas estão me levando ao meu sonho real: o meu filho tão esperado e desejado.

 

De manhã tomo um banho e decido que quero a doula comigo. Ela estava em outro parto e pede para a backup substituí-la. Passamos o dia aqui contando contrações, massagens, conversando. Por volta de onze e pouco da manhã, a obstetriz chega para me avaliar e decido que não quero saber minha dilatação. Ela só fala que estou em fase latente e que está indo tudo muito bem.

Minha mãe vai para minha casa e eu sinto a agonia dela em me ver com dor.

Às 18h tudo para. Nenhuma contração por mais de 1 hora. A doula e minha mãe vão embora. Às 23h eu e meu marido vamos deitar abraçados. Estou muito cansada, mas não consigo dormir. Só consigo pensar que ele está chegando.

 

 

Meia noite as contrações recomeçam a todo vapor. Duram 1 minuto a cada 5 minutos. As 3h30 ligo para a minha doula e ela vem. Seguimos pela madrugada com muitas contrações. Abraço, carinho, massagem e palavras encorajadoras.

 

 

Às 9h da manhã seguinte tenho contrações a cada 3 minutos. Entro no banho. Fico um tempão no chuveiro, sentada na bola. Meu marido coloca uma música e danço. A doula me encoraja a soltar o corpo, os joelhos. Faço isso e me sinto melhor. Tirar a tensão é muito bom. Tomamos café, mas estou enjoada. Choro. Minha mãe chega, sogra manda mensagem, sogro liga.

Decido que quero que a obstetriz venha.

 

Sinto que está próximo. Choro, mas não sei explicar por quê.

 

A obstetriz chega e me examina: sete centímetros de dilatação. Ela liga para o obstetra e eu percebo que ele quer que eu fique mais em casa. Trabalho de parto de primíparas costuma demorar. Insisto em ir pro hospital e vamos. A pior parte das contrações foram no carro. Que doooor!

 

Chegando ao hospital, passamos pelo pré atendimento. Cardiotocografia, burocracias. Mas conseguimos que não façam um novo exame de toque em mim. A obstetriz e eu subimos para a delivery room, enquanto meu marido e a doula vão colocar a roupa. Não fico em nenhum momento sozinha. No caminho, paro algumas vezes devido às contrações. Respiro.

 

Chego na sala às 12h17. A doula enche a banheira, tiro a roupa e entro. Que alívio! 

 

Contrações bem perto umas das outras. Menos uma. Felipe está chegando. Choro baixinho. Meu marido coloca música. Ainda não estou total na partolândia. Mais contrações.

Dou três mordidas num picolé de limão, ofertado pela doula. Mais uma contração e uma vontade absurda de empurrar. Olho assustada para a obstetriz e digo que meu corpo tá mandando fazer força. Ele me manda seguir meu corpo e levanta. Pronto, atravessei o portal da partolândia. Ela liga para o obstetra e a pediatra.

Daí em diante apenas contrações de expulsivo. Dilatação total. Sinto medo e digo isso ao obstetra que acabara de chegar. Ele me pergunta o que preciso? Digo para ele trocar de lugar comigo. Todos caem na risada. A doula coloca uma compressa gelada na minha testa. Amo aquela sensação.

 

 

Eles me ensinam a no momento das contrações empurrar e puxar a perna. Faço o que eles pediram. Faço força três vezes, mas não consigo ir até o fim e a cabeça dele volta. Grito muito. Peço ajuda para o meu filho várias vezes. Chamo: vem filho, vem filho! Coloco a mão para sentir a cabecinha dele. Era o que faltava. Mais duas contrações, empurro muito, grito e ele nasce. Ele está todo cheio de mecônio (uma cor amarelo ouro, que todos comentam) e uma circular de cordão.

 

Sento imediatamente. Como mágica já não há mais nenhuma dor. Eu atravessei o portal. Já não sou mais a mesma. Renasci. Realizei o meu sonho. Sou uma nova mulher.

 

Pego ele na água. E o olho de frente, olho no olho. Falo pra ele: ‘Bem-vindo, filho. Nós conseguimos!’. Abraço forte e sinto o melhor cheiro que já senti na vida. Ele chora alto e forte. Olho para o meu marido com amor. Ele está muito emocionado e me beija a testa e depois a boca.

 

Todos saem. Ficamos apenas nós três. A nova família.

Sinto o cordão pulsar. Como desejei isso! É incrível.

 

A pediatra leva o Felipe para avaliar devido à quantidade de mecônio. APGAR 10/10. Ela o pesa: 3.310 kg, contrariando a todos que achavam que seria um bebê de 4 kg.

Eu levanto e vou pra maca. Já na maca obstetra pede para que eu faça uma força bem fraquinha. Sinto algo quente entre as pernas. Pari a placenta que nutriu meu filho por 9 meses. Peço pra vê-la. Linda. Enfermeiras fazem os exames de sangue pelo sangue da placenta. Não quero que o Felipe seja furado.

 

Tive uma pequena laceração, sem necessidade de pontos. Estou cansada. Estou feliz. Uma felicidade sem tamanho. Um amor físico. Não vem do coração, não vem da cabeça. Está na pele. É sólido. Tem forma. Dá até para pegar.

 

Felipe volta para o meu colo e suga forte meu seio. Nem consigo acreditar. Lágrimas saem dos meus olhos. Tiramos uma foto da família. A equipe se despede. Tiro fotos com eles e agradeço muito.

 

O marido foi fazer nossa internação e ficamos só nós dois no escurinho. Fico namorando meu filho. É lindo. A cara do pai. Todo perfeitinho. Muito mais do que eu sonhei. Ele fica ali, pele a pele comigo, do jeito que todo bebê deveria ficar em suas primeiras horas de vida.

 

Foi nesse dia, às 14h35, que realizei o maior e melhor sonho da minha vida. Sou mãe.

Agradeço à Deus pela dádiva de gestar e parir o meu filho. Por ele ser perfeito e cheio de saúde. Pela minha gestação maravilhosa.

 

Agradeço primeiramente à minha mãe. Foi por causa dela que senti esse desejo tão grande de ser mãe também, com ela aprendi como seria especial.

Ao meu marido que me acompanhou e apoiou em minhas escolhas.

Aos obstetras e à obstetriz por respeitarem as mulheres e praticarem medicina baseada em evidências.

 

Às minhas doulas pelo carinho, apoio e força. Não teria sido tão bom sem vocês.

À toda nossa família que respeitou minha escolha (mesmo agoniados com a espera) e à todos que torceram por nós.

 

 Dedico esse relato à todas as mulheres, por que eu quero que elas sintam esta forma de amor. Desejo que, quando seus filhos chegarem ao mundo, elas os olhem de frente. Mais do que isto, eu desejo que elas sintam esta sensação de poder. Porque parir é poder! Tirar um bebê de dentro, no grito e na força, com os recursos que a natureza te deu, faz com que você se sinta mais mulher. E isto não deveria ser tabu. (adaptado das palavras de Gabi Salit, blog Dadadá).

 

“Porque parir, é passar de um estágio a outro. É um rompimento espiritual e como todo rompimento, provoca dor. O parto não é uma enfermidade a ser curada. É uma passagem para outra dimensão”. (Laura Gutman)

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