Pós parto: precisamos contar com quem está do nosso lado

29/07/2016

Nossa sociedade construiu um modelo idealizado de mulher no puerpério: linda, feliz, satisfeita, completa e sem dores. Mas há que se ter delicadeza ao falarmos desse momento. Sim, talvez as mães recém nascidas sejam lindas e satisfeitas, mas nessas mesmas pessoas podem coexistir sentimentos ambivalentes, dores físicas ou emocionais, angústias com relação ao parto vivido e muitas dúvidas sobre esse novo lugar a ser construído.

 

Daniela Andretto e Maiana Rappaport coordenam o Grupo De Pós Parto semanalmente na Casa Moara desde 2010

 

 

Como não ser intenso?

 

A chegada de um filho não passa desapercebida. Todos concordamos que não deve ser um evento tão pequeno à ponto de não provocar mudanças impactantes, tanto no cenário quanto nas pessoas envolvidas. No entanto, é muito comum que as mulheres que acabam de se tornar mães sofram cobranças e exigências, diretas ou indiretas, que pulsam pelo abafamento de suas questões. Normalmente tem como pano de fundo a necessidade externa de que ela retorne para um lugar que não mais existe: aquele da mulher que ainda não era mãe.

 

As psicólogas da Casa Moara, especialistas nesse quesito, também estão de acordo com essa premissa. 

 

"Como não ser intenso? Como não gerar impacto emocional? Mulheres que estão em fase de reorganização de seu lugar-tempo estão mais próximas da realidade do puerpério real do que aquelas que se colocam à mercê da expectativa social. É triste, pois muitas vezes sua rede de apoio na verdade se torna mais uma rede de cobrança do que apoio de fato."

 

Portanto não há nada de errado com uma mulher no puerpério que flutua em seu humor, sente-se frágil e incapaz de cuidar de seu bebê, parece diferente da pessoa que ela costumava ser. O que pode estar errado no momento do pós parto - imediato e estendido - é a falta de apoio e acolhimento para essa mulher.

 

Enxergar o pós parto como um processo ajuda muito. Imagine que a família que acaba de receber um bebê está aprendendo um novo idioma. De acordo com Daniela, o bebê é um desconhecido com necessidades urgentes, muitas vezes mais rápidas do que o tempo de aprendizados dos pais. "E esses pais precisam aprender essa nova língua, esse jeito completamente exclusivo de se comunicar", completa Maiana. 

 

Não se trata apenas de suprir as necessidades desse bebê e atingir as expectativas criadas sobre o que é ser uma boa mãe, um bom pai. Se trata de um longo período de descoberta, do desconhecido, e portanto demanda energia, disponibilidade e respeito ao tempo de cada um. "As mulheres no pós parto estão vivendo um deciframento constante de sinais, gestos, expressões. Precisam treinar uma nova escuta, um novo olhar, em diversos formatos."

 

E isso colocado de forma tridimensional: no puerpério a mulher descobre, redescobre, revisita e reconhece o filho mas também seu espaço e lugar no mundo, ela mesma, suas relações com sua própria mãe, seu papel como mulher. "É um processo extenuante", explicam.

 

Parto Ideal X Parto Real e os desafios da Amamentação

 

Tantos anos à frente dos grupos de pós parto da Casa Moara revelaram para as duas psicólogas temáticas pungentes. Sentimento constante de solidão, mudanças nas relações do casal, problemas de convivência com as próprias mães, saudades da vida anterior, são alguns dos temas que permeiam quase todos os encontros. Mas é certo que parto e amamentação tem uma relação intrínseca com a qualidade do pós parto, especialmente se as mulheres tiverem a chance de vivenciar esse período com abertura para os enfrentamentos que essas duas vivências exigem. 

 

Daniela e Maiana concordam que uma experiência satisfatória de parto melhora a qualidade do pós parto. E isso não se trata de um conjunto fixo de tipos bons ou tipos ruins de parto. Se trata de como aquela mulher, individualmente, dentro de suas expectativas, sentimentos e vivências se relaciona com a história de parto que viveu.  Essa ligação acontece também com a amamentação. 

 

"As dificuldades com a amamentação e a qualidade de apoio que a mulher teve também tem um grande impacto na maneira como a mulher se sente no pós-parto."

 

As duas psicólogas contam que quanto maiores as expectativas criadas sobre parto e amamentação, maiores são os efeitos na maneira como ela viverá o pós-parto. De um modo geral, a idealização é bem diferente daquilo que se vive, especialmente quando se trata de parir e amamentar um filho. A elaboração dessa distância é um tema importante para as mulheres no puerpério.

 

"Mulheres muito rígidas e com um padrão muito rígido, com expectativas muito estritas e um ideal de mãe perfeita, acabam tendo muita dificuldade em relaxar frente a tanta exigência e ritmo do desconhecido, que é um novo bebê na família", completam. 

 

Alertam ainda para uma grande armadilha que se instala no vasto grupo de mulheres que atendem, que não tiveram o parto que idealizaram. Uma vez que o “parto não deu certo” muitas mulheres depositam “todas suas fichas” na questão da amamentação bem sucedida.

 

"Isso torna a situação do pós parto ainda mais delicada, pois além da frustração frente à experiência do parto a idealização de uma 'amamentação perfeita' torna-se um imperativo. Às vezes vira uma necessidade muito  além do próprio desejo de amamentar". 

 

 Postada nas redes sociais, a foto de Daneille Haines, viralizou em poucas horas. A mãe relatava com sinceridade e delicadeza o momento difícil que vivia, de amor profundo pelo filho ao lado de absoluto esgotamento emocional: 

 

"Sarah tirou essa foto de mim. Ela chegou com comida em casa e disse: como você está? Eu falei, estou um caco. Conversamos, ela me ouviu e disse: eu já estive nesse lugar também. Foi bom saber que ela também já havia enlouquecido. Então ela disse: eu sei que isso vai soar estranho, mas você tem uma câmera? Você está tão crua, tão bonita... Eu estou muito feliz que ela tirou essa foto. O plano dela era só me levar comida, mas ela acabou ficando mais tempo, e eu precisava muito dela. E ela sabia. (...) eu precisava dela para me ajudar a amamentar meu bebê, eu precisava de muita ajuda com a pega. Eu precisava que me dissessem que meu bebê estava bem. Esse é o verdadeiro pós parto. Vocês que já passaram por isso, conseguem compartilhar como se sentiram, imediatamente depois que o bebê nasceu?

 

 

Mas do que se trata apoiar uma mulher no pós parto? 

 

As infinitas combinações de contextos e aspectos psíquicos de cada mulher representam características muito peculiares e individuais na vivência do pós parto, ainda que temáticas centrais sejam recorrentes para a esmagadora maioria das mulheres. No entanto, há algo sobre receber um filho que é urgente, necessário e comum a todas: apoio.

 

Mulheres vivendo o longo processo de tornarem-se mães precisam de apoio. É muito comum que as pessoas em torno de uma recém-nascida-mãe subentendam o tipo de apoio que ela precisa, atropelando suas reais necessidades. "O que é bom para mim é bom para o outro, mas em relação ao puerpério, desejos e necessidades são muito pessoais pois os sentimentos desencadeados nesta fase são delicados e ninguém melhor do que a própria mulher para dizer como você pode ajudá-la."

 

Portanto, oferecer apoio para uma mulher no puerpério é antes de tudo, escutar. Buscar conhecer o que aquela pessoa precisa. Quando a mãe se sente amparada, compreendida, acolhida, é maior a sua disponibilidade emocional para reverberar o mesmo para o bebê que tanto depende dela. 

 

"Acolher é apoiar sem críticas. Colocar-se à disposição dos desejos e necessidades de outro alguém, seja do ponto de vista prático, fazendo uma comida, arrumando a casa ou enchendo a geladeira, até aspectos mais sutis como estímulo constante para pequenas e grandes conquistas, companhia, carinho", reforçam as psicólogas. 

 

Em casa, nos grupos e na sociedade

 

As redes sociais tem contribuído bastante para a desmistificação do que se trata o "apoio" no pós parto. Mulheres tem narrado que não basta uma visita ou um presente que demonstre afeto. Na verdade, visitas podem até atrapalhar em alguns casos. Observar e respeitar esse longo processo de transição e construção de vínculos de afeto é uma tarefa de toda a sociedade, e pode englobar muitas mudanças de comportamento e paradigmas. 

 

O Grupo de Pós Parto na Casa Moara inicia uma nova turma em 01/ago - Inscreva-se!

 

Daniela e Maiana reiteram que os grupos de apoio no pós parto exercem também a função terapêutica de apoiar a mulher nessa jornada de auto conhecimento, aceitação e aprendizado à partir de suas vivências, de modo que ela possa construir sua história de maternidade de forma emancipada. E não baseada nas grandes exigências, e completo abandono estrutural em muitos casos, que se tem com mulheres e mães na nossa sociedade. 

 

Basta avaliar o grande paradoxo que envolve essa temática. Preconiza-se um parto normal e humanizado, mas pouquíssimos profissionais praticam esse modelo. Espera-se dessa mulher que ela esteja realizada com a chegada desse bebê, muitas vezes recriminando a natureza delicada desse momento. Sugere-se que mães amamentem exclusivamente, mas os pediatras não são preparados para orientar, acolher e apoiar a amamentação. Muito se fala de amamentação prolongada, mas nossas leis não garantem licenças maternidade que acolham essa demanda. Queremos apoio da sociedade, mas poucas são as iniciativas amplas que efetivamente promovem essa estrutura.

 

 

"Precisamos portanto contar muito com quem está ao nosso lado", resumem.

 

 

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Fotografias por:  Kátia Ribeiro,  Bia Takata, Lela Beltrão, Marcelo Min, Cristiane Pereira e Carla Raiter / Acervo Casa Moara