Relato de parto: “Escolha da equipe me fez sentir plena e segura durante o parto”

                            

Quando vi aquelas duas listrinhas do teste rápido, já tinha certeza do resultado:

nosso bebê estava a caminho. Tanta emoção, tantos pensamentos passam pela cabeça  naquela hora e nas semanas que viriam a seguir. Eu realmente não tinha noção da complexidade que envolvia o parto, apenas gostaria que fosse "normal".

 

Sem muito saber por onde começar, por pouco quase nos enganamos na escolha. Estava infeliz e incomodada com as informações que estavam chegando a mim pelo então obstetra da vez. Quando estava no quinto mês de gestação decidi que queria outra coisa para o meu pré-natal e parto. Foi quando comecei a estudar as alternativas e acabei conhecendo a linha da humanização. Por indicação da doula Bruna Queiroz conheci a Dra Andrea Carreiro e um tempo depois a obstetriz Priscila Raspantini. 

 

Desde os nossos primeiros encontros me senti muito à vontade e, apesar das inseguranças de uma mãe de primeira viagem, estava certa de que tinha feito ótimas escolhas quanto à equipe. Fui tendo um pré-natal cada vez mais tranquilo, tirando todas as dúvidas, aprendendo e me surpreendendo, porque nunca imaginaria que todo esse processo pudesse ser tão... natural! 

 

Eu e meu marido fomos a algumas palestras, frequentamos rodas de grupos humanizados e percebemos o quanto a informação fazia a diferença. Acabamos optando por um parto humanizado hospitalar no Santa Joana. E num piscar de olhos chegamos às 39 semanas e seis dias, quando senti realmente as verdadeiras contrações. Verdadeiras porque uma das minhas grandes preocupações era saber se eu as distinguiria das contrações de treinamento. E eu só conseguia me lembrar da Dra. Andrea dizendo que eu saberia quando isso acontecesse.

 

Um dia antes da DPP (data provável do parto) fui ao banheiro e no xixi saiu sangue, além do normal. Percebi que algo acontecia, sentia cólicas estranhas e acordei meu marido por volta das 4h. Começamos a contar as contrações. No início, elas eram bem leves. Me lembrei dos relatos de mulheres que voltavam a dormir ou iam se maquiar, fazer a unha ou realizar qualquer atividade que as distraísse o suficiente para ajudar a passar o tempo. Mas no meu caso isso não foi possível! As contrações se intensificaram muito rápido e logo eu já não conseguia mais sentar ou deitar. Era uma dor muito forte!

 

Já havíamos mandado mensagens na madrugada para a Priscila e para a Bruna, que pediram para contar as contrações. No nosso mundo ideal, elas nos encontrariam em casa, onde ficaríamos fazendo massagens e relaxando até o momento de seguir para o hospital. Entre uma dor e outra, ia vocalizando as dores conforme Bruna havia ensinado. Bola, rebolados, fazendo tudo. Mas me preocupava por não ter minha doula e a obstetriz em casa, principalmente por ter a consciência de que era uma segunda-feira, por volta das 9h, em uma cidade caótica. Assim, meu marido acabou sendo meu “doulo”, se desdobrando para atender aos meus pedidos -água, banho, toalha- e ainda tentando me alimentar, seguindo as instruções da equipe que chegavam pelo whatsapp.

 

Naquele momento para mim era impossível comer qualquer coisa, como a dor estava muito forte, só vomitava. Então tentava me concentrar mantendo os olhos fechados e fazendo longas respirações. Entrei e saí do chuveiro umas duas vezes, mas também não estava adiantando. Sentia certo alívio no início, com a água bem quente caindo sobre as costas. Mas, como era fevereiro e a temperatura já estava nas alturas, não conseguia ficar por muito tempo. Àquela altura do campeonato eu sentia tanta dor que estava acreditando que a Martina poderia nascer em casa a qualquer momento.

 

Foi quando a Priscila chegou e pediu para eu me deitar e examinarmos o colo. Com muita relutância, já que ficar deitada era muito dolorido, consegui e ela viu que a dilatação estava em 7 cm para 8 cm. Já acionamos a Dra. Andrea, pois tínhamos que ir naquele momento para o hospital.

 

Na loucura só então me dei conta que precisava vestir uma roupa (risos!).

 

A Priscila propôs irmos no carro dela e, enquanto separávamos as nossas malas e ela trazia o carro, senti aquele líquido quente entre as pernas e percebi que a bolsa tinha rompido. Esquecendo completamente de tudo o que eu tinha ouvido e lido a respeito, nem prestei atenção na cor do líquido. Nem lembrava que isso iria acontecer!

 

Quando a Pri chegou, entramos atrás e eu mal conseguia sentar, fui urrando de dor durante todo o trajeto. E que trajeto! Pegar uma Av. Dr. Arnaldo, seguida da Paulista em plena segunda-feira às 10h30 não é para os fracos, mas o santo Waze nos sinalizou que em 30' chegaríamos ao Hospital Santa Joana. E assim foi. Pouco me lembro do caminho, só de alguns flashes, vendo aquele trânsito, aquele sol brilhando, os outros carros e seus passageiros que estariam imaginando o que uma mulher fazia naquela posição no banco de trás e gritando, além, claro, de pensar que a bebê nasceria ali mesmo. De repente comecei a sentir uma vontade de fazer força, mas incrivelmente não tive medo, pois sabia que eu estava em boas mãos, mesmo que dentro de um carro em uma avenida congestionada. 

 

Hoje, relembrando, a sensação que tenho é que comecei a abstrair a dor e de repente estávamos estacionando em frente ao Hospital. 

 

Algumas poucas burocracias e logo encontrei a Dra. Andrea, para meu alívio e conforto. Fizemos nova medição e lá estava eu com dilatação total, correndo para a sala de parto. Não me recordo de detalhes, apenas de trocar de roupa e, numa maca, chegar nessa sala, quando já encontrei a equipe que me deixou totalmente à vontade.

Bebi água, suco, agachei, fiquei de quatro, tudo menos deitar na cama... Usamos o rebozo, a banqueta, vai, vem, agacha aqui, ali. Contrações iam e vinham. O tempo passava, as dores aumentavam. Lembro de ficar muito com os olhos fechados e ouvindo os sons ao redor, inclusive a música ambiente.

 

 Muita força, respirações longas, até o momento em que a cabecinha da Martina despontou e aí fez todo o sentido o tal círculo de fogo que eu ouvira falar. Fazer força e respirar corretamente foi fundamental. E ouvir as palavras de incentivo da equipe e do meu marido, que fazia de tudo para me ajudar e se manter calmo também. Passadas três horas do período expulsivo, minhas contrações estavam mais espaçadas e diminuindo, com isso a Dra Andrea propôs uma quantidade mínima de ocitocina para me ajudar. A Martina já estava muito próxima de  nascer, só faltava uma forcinha a mais que eu não estava conseguindo fazer naquele momento. Concordei então com o procedimento e cerca de meia hora depois a nossa bebezinha nasceu. Eu na banqueta, meu marido atrás de mim e a equipe  literalmente aos meus pés. 

 

A sensação de ter a bebê em meus braços naquele momento é inesquecível. Eu simplesmente fiquei sem palavras, só conseguia olhar para aquela pessoinha e sentir o maior amor do mundo, que desconhecia até então.

 

Protagonizando toda essa emocionante aventura, tenho certeza que a escolha da equipe certa foi determinante para eu me sentir plena e segura de tudo durante todo o processo. O fato de eu ter parido a poucos meses de completar 40 anos poderia ter sido um empecilho para a escolha desse tipo de parto, se eu tivesse ouvido as pessoas erradas. Assim como a Martina estar em posição pélvica na 36ª semana. Mas não! Além de ter ficado super tranquila com as informações referentes à gravidez na minha idade, tive muita orientação quanto a exercícios que poderiam ajudar a bebê a se posicionar. Foi tudo lindo e perfeito. Só tenho a agradecer à Dra Andrea Carreiro e à Priscila Raspantini, que me ajudaram a descobrir essa outra mulher que nasceu em mim no momento em que abracei aquele serzinho.

 

 

Milena Tutumi, 40, jornalista freelancer e empreendedora pariu Martina em 13/02/2017.

 

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