'A maior dificuldade na gravidez foi achar um médico humanizado'

11/04/2018

 

Nasci de cesárea e cresci ouvindo que era o melhor caminho para se ter um bebê, afinal, era agendado, eu não teria nenhum “susto” e poderia ir linda e tranquila para a maternidade ter o meu bebê, além do fato de não me “estragar” lá embaixo. E assim foi até os meus 18 anos, decidida que se um dia eu tivesse um filho, ele nasceria de cesárea.

 

Com 18 anos conheci meu marido e ao longo do relacionamento começamos a conversar sobre o assunto de ter um bebê um dia e como ele viria ao mundo. Meu marido me mostrou que o parto normal seria, por diversos motivos, a melhor forma de trazer um bebê ao mundo e aos poucos fui mudando meu pensamento.

 

Aos 28 anos engravidei e nesse momento eu já estava decidida que faria de tudo para trazer minha bebê (Luísa) ao mundo da maneira mais natural possível. Eu li, me informei, estudei muito e queria ir além do parto dito como “normal” (todos os partos são normais, o certo seria dizer parto vaginal). Queria que fosse totalmente natural, sem intervenções, queria sentir tudo, queria que meus desejos fossem respeitados nesse momento que seria único na minha vida.

 

Ao longo da gestação, me deparei inúmeras vezes com a ideia equivocada que a sociedade tem sobre o parto natural, associando o momento do nascimento a algo negativo: dor, sofrimento, medo.  Outro ponto é a questão do parto “humanizado” que a maioria das pessoas acreditam que seja somente o parto na água e não sabem que um parto humanizado pode ser inclusive uma cesárea, desde que respeitem a mulher.

 

É tão difícil entender como chegamos a esse ponto, que o mais natural se torna o estranho, e o mais triste durante a minha gestação foi a dificuldade de encontrar uma médica humanizada. Cada tentativa de encontrar uma médica em São Paulo era uma decepção, choro e tristeza, até que com seis meses e meio de gestação conheci a Dra. Andrea Carreiro e a Casa Moara que me acolheram tão bem mesmo com a gestação mais avançada.

 

Com a Dra. Andrea Carreiro (obstetra) e a obstetriz Natália Rea eu me encontrei. Finalmente me sentia segura e tinha 100% de certeza que seria respeitada e fariam de tudo para eu viver o momento que sonhei.

 

 

 

CONTRAÇÕES DE TREINAMENTO

 

Comecei a ter as contrações de treinamento umas 2 semanas antes do parto e a ansiedade começou a bater pois eu já estava com 38 semanas e a pressão da família já estava começando. Na consulta com 39 semanas eu estava com 1,5cm de dilatação, mas a obstetriz falou para eu ficar tranquila que ainda poderia levar alguns dias pois eu não estava com nenhuma contração além das contrações de treinamento.

 

Minha maior preocupação era “será que vou saber quando é uma contração de verdade”, pois eu achava que eu poderia ser muito forte a dor e não sentir tanto quanto falam, mas acredite, você vai saber sim!

 

Na consulta com 39 semanas e 6 dias eu já estava ficando desesperada, pois não queria deixar passar de 41 semanas (eu não aguentaria a pressão da família e a ansiedade). Nesse dia eu estava com 3 cm de dilatação! Fiquei feliz de estar evoluindo sem eu sentir nenhuma dor! Mas ainda assim a Dra. falou para eu segurar a emoção pois não havia sinal de trabalho de parto.

 

Fui pra casa feliz e segui todas as recomendações da médica (fiz acupuntura, chazinho natural, comida apimentada e até namorar com o marido mesmo com aquele barrigão).

 

No dia 09 de fevereiro de 2018, com 40 semanas e 3 dias e gestação, sexta-feira de carnaval acordei às 4h da manhã com uma cólica forte que eu não havia sentido até então, mas nem acordei meu marido pois durou alguns segundos e eu consegui voltar a dormir. Às 5h outra. Às 6h outra. Opa! Será que é o dia? Mandei mensagem para a obstetriz e ela falou para eu observar os intervalos, mas como estava muito espaçado ainda não era trabalho de parto.


Eu estava muito animada e acreditando que seria o dia! Quando acordamos, contei para o meu marido e naquele dia ele trabalhou de casa. Às 9h fui até a academia do prédio fazer esteira e as contrações passaram para 30 minutos de intervalo. Avisei a médica e ela pediu para me ver às 13h30, mas até a consulta as contrações não regulavam.


Quando cheguei lá estava com 5cm e na hora pensei "meu Deus é hoje!". A médica disse: "Calmaaaaa, pois ainda não compassaram e enquanto não ritmar não é trabalho de parto".


Sai da consulta, eu e meu marido fomos ao banco, farmácia, correios e tendo contrações no meio do caminho. Em casa almoçamos e sentamos no sofá para ver seriado mas eu não conseguia me concentrar então fui para o chuveiro e aí as contrações entraram em um ritmo de 5 em 5 e em menos de 30 minutos passou para 2 em 2 minutos. Era a hora de ir para o hospital!

 

Cheguei ao hospital às 17h15 com 7cm de dilatação e tranquila! Quando vinha a contração doía sim, mas eram segundos e quando passava era como se nada tivesse acontecendo, e a cada contração eu só pensava que estava cada vez mais perto da minha pequena chegar.

 

A sala de parto era à meia luz, ligamos música, o ar condicionado estava desligado e o ambiente era quentinho e acolhedor. Estávamos eu, meu marido, Dra. Andrea e Natália. Enchemos a banheira para que eu pudesse experimentar se aliviava a dor, e nossa como aliviou. Fiquei um tempo na banheira e comecei a ter calor e pedi para sair, mas do lado de fora a dor era muito mais intensa e resolvi voltar para o quentinho da água e ali fiquei.


Em nenhum momento pedi anestesia ou qualquer intervenção. Estava respirando fundo e não pensando que era dor e sim amor. Mas no momento da expulsão o cenário mudou um pouco, a dor do círculo de fogo era maior do que eu esperava e eu só pedia para a Dra. Andrea me ajudar a puxar a bebê, pedi umas 3x e ela me explicou que para ela intervir eu teria que sair da banheira e ir para maca e que faltava muito pouquinho.

 

Respirei fundo, meu marido me incentivou e deu forças para aguentar só mais um pouquinho. No final de um impulso, senti ela saindo e a Dra. Andrea me entregou minha filha embaixo d’água. Quando a tirei, nos meus braços, ela estava de olhos abertos, piscando, olhando pra nós. 

 

Às 21h54 minha pequena veio ao mundo, naturalmente, sem anestesia, na água e com infinito amor. Meu marido participou todo instante e estava comigo dentro da banheira no momento que ela chegou, foi único, intenso e inesquecível.

 

Eu pensei que o pós-parto seria um momento super desgastante – sempre ouvi isso. Ao invés disso estava completamente extasiada. Não sentia dor nem cansaço depois do parto. Só conseguia olhar pra ela, conversar, foi o momento mais feliz da minha vida. Não acreditava que havia feito aquilo, entrar naquela banheira foi a melhor decisão. Meu parto foi totalmente natural, Luísa nasceu quando estava pronta, no ritmo dela, sem interferências.

 

Serei eternamente grata às duas mulheres que me acompanharam durante esse tempo e fizeram com que eu tenha a lembrança do parto como um momento doce, forte e feliz: Dra Andrea Carreiro, nossa obstetra que nos instruiu ao longo das semanas, e Natalia Rea, nossa obstetriz, que me confortou e instruiu para que tudo corresse da forma mais confortável possível. 

 

Todo mundo merece passar por essa experiência. Virei mais uma defensora voraz do parto humanizado, o único que deveria existir. 

*Fernanda Bonatto é mãe de Luísa

Please reload

Siga a Moara

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon

Disciplina positiva; o que é e como colocar em prática?

November 12, 2019

1/10
Please reload

Em Destaque

Leia por Tema

Posts Recentes

Please reload

Fotografias por:  Kátia Ribeiro,  Bia Takata, Lela Beltrão, Marcelo Min, Cristiane Pereira e Carla Raiter / Acervo Casa Moara